segunda-feira, 29 de setembro de 2025

Olhos Alados

Meus olhos atravessam a escuridão como um raio.
Minh'alma levita, leve como um barco alado,
Por sobre as montanhas quebradas,
As falésias e os mares
Cujas ondas rugem com seus tambores de guerra.
Mas meu espírito não se abala,
Minha luz não se diversa.
Meu coração está firme
Em minha pulsão de vida.
Meus pés não tremem.
Minhas mãos não vacilam.
Minha respiração cresce.
O ar puro me preenche,
Assume a minha forma dentro do peito
E então sai como voz,
Ecoando pelo espaço num estrondo e num sussurro.
Ouço o silêncio ao redor
E sei.
Eu estou pronto.
Minha forma está plena.
Abro minhas asas e saco uma pena.

domingo, 21 de setembro de 2025

Sonata de Verão para Cordas e Aortas


Miley Cyrus - Secrets

Sou sempre inundado
Daquela sensação de lembrança
De verões escaldantes,
Piscinas verdejantes,
Escaravelhos piscantes
E nuvens que parecem estacionadas
Com seus tons de rosa, azul
E púrpura-camaleão
Fazendo do sol uma lua reluzente,
Quente e quase crente
Na arte de pincelar palavras
E fazê-las soar como estradas já percorridas
E de novo revividas
No calor da monção.
Parece que lembro de um furacão
Que me olhou através dos teus olhos
Rodopiando no centro dos céus,
Fazendo as estrelas girar
E o mar ribombar,
Como se o mundo inteiro fosse meu lar
E nada mais houvesse na Terra
Além dos teus braços cobreados,
Teu suor nos meus lábios
E tua pele de azeite
Derretendo minha mente,
Abrindo a espessa mata à minha frente
E tornando a trilha tão nítida,
Tão desinibida
Em direção a mim mesmo,
Levando-me a encontrar meu desejo
- Puro, sem devaneios -
E enfim fazer dele
A minha morada final.
Às vezes acho que moro
Nesse lugar perdido
Entre a memória e a fantasia
Que não sei bem encontrar,
Mas que está sempre desperto,
Ecoando distante
Nas cordas de harpa
Que pulsam com sangue de aorta
Nos meus devaneios silenciosos
Sob o mormaço do luar.

quarta-feira, 3 de setembro de 2025

Amor de Sombras

Vinde a mim os oprimidos
E eu vos renegarei.
De braços abertos
Por sobre o abismo
Eu vos entregarei.
Assim, em silencioso degredo,
Eu vos amo
Pois este é o amor Que sobre mim mesmo fundei.
Meu colo arde
Com o fogo do abandono;
Meu ventre alarde
Com o bramido de um sopro
Que conta das inconstâncias
Correndo em minhas veias.
Com o abraço que, como uma teia,
Me encobre;
O laço que me permeia
E se diz nobre.
Meus olhos de sono profundo
Apagam-se na luz.
Minhas mãos macias
Acariciam o vazio.
Eis como vos acolho:
Com uma imensidão de nada.
Pois o nada me remove
E em nada eu me entalho.
A rua está cheia de almas
E eu não as vejo.
Eu mal sei meu nome,
Mal me reconheço
Em meio ao disforme e seco gole
Que no peito entalei.
‘Não me abandone, não me abandone’,
Eu peço ao meu salvador.
Mas ele tem fome
De tudo que some
Quando a dor não sabe o que é amor.
Eu sou martírio,
Sou espelho vazio
Escondido num falso esplendor.
Eu sou a cruz que consome
Meu sangue descrente,
Sou a estrela cadente
Que cai infinita
Sem nunca cair
E assim perde o chão onde se decompor.
Eu sou a luz que desvia,
A pista que some,
O brilho que guia rumo à escuridão.
Eu sou o profeta da romaria
Que te acaricia
E te deita rente ao furacão.
Onde, então, está a verdade?
Onde está o abade
Pulsando forte e constante
Na minha confusão?
Eu lhe preciso… Lhe quero!
E tudo que ouço é “sê forte”,
Quando tudo que sei é ser sofreguidão.
Busco
Mas a bússola não tem guia
O corpo se esfria
E se perde de mim, sem fricção.
O labirinto é espesso
E eu não sei se procuro
O minotauro ou a saída -
Nem mesmo se entre eles
Há qualquer diferenciação.
Eu ando o caminho turvo
Das minhas profundezas
E de longe miro as estrelas
Esperando que delas venha
A minha redenção.