terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Ser Amado

Às vezes me surpreendo
Com o tanto que você já me ensinou
Em tão pouco tempo -
Com o tanto que me mudou,
Abalando minhas crenças mais profanas
E abrindo caminho para eu me reinventar.
Parece insano
O quanto contigo sou livre
Para me derramar,
Vertendo minhas dores mais distorcidas
Em lágrimas límpidas
Que se desfazem no chão.
É quase um milagre
O quanto você me faz amar -
Amar você, a transformação, o mundo…
Amar plural e transbordante.
Você me ensinou a amar através de si -
A amar como complemento,
Como puro contento
De uma alma que nada mais quer
Do que se iluminar -
Que quer ser eu sendo outro, melhor e mais singular.
Porque você me ensinou a ser amado:
A ser querido,
Visto,
Achado
Em meio à selva escura dos meus pensamentos.
Você me ensinou a ser abraçado
E, envolvido no teu abraço,
Me desembaraçar.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Amarelo

(Tribalistas - Velha Infância [instrumental])

Quero me colorir do teu amarelo
Para assim ser peito aberto,
Nu e descoberto -
Desabrochar minhas pétalas sob o sol
E seguir seu caminho celeste
De calor e sentidos libertos.
Quero encontrar tesouros secretos
Nas linhas das tuas mãos
E explorar o dourado trajeto
Que percorre a tua pele,
Vivendo de te fazer
Carinhos singelos e vãos.
Quero te adorar como os pagãos:
Fazer de você o meu templo,
Morada sublime dos meus desejos -
Meus anseios loucos e sãos;
Erigir com você as colunas do tempo,
Viajar ao espaço,
Explorar as estrelas
E virar um divino mormaço.
Quero ser com você
A conjuntura completa:
A solda, o ferreiro e o aço.
Quero ser ternura e abraço -
Ter a doçura excessiva da gente
Que não teve um só dia incontente,
E manter a energia de criança inocente
Que de toda alegria faz estardalhaço.
Quero ser como uma miragem
Que em meio ao deserto
Se materializa em oásis,
Mas também as várias fases
De um rio em sua longa viagem:
Ser corredeira, remanso
E, afinal, estuário.
Pois vocé é o meu descanso,
O meu santuário:
Contigo eu vazo no mundo
E me deixo fluir,
Me amarelando
Num mergulho profundo
Rumo ao poente,
Sabendo que o mar
Há de ser meu porvir.

sábado, 3 de janeiro de 2026

Espelho

(Fantasia in D Minor, K. 397 - Wolfgang Amadeus Mozart)

Amar você é como mirar um espelho.
Eu me vejo em você,
Só que vejo diverso -
Somos quase o reverso,
Uma contradição.
Nosso amor é um poema dissonante,
Um dissenso harmonizante...
É o solo fecundo da divinação.

Pois as nossas cadências,
Embora distintas, se alinham -
No movimento, elas se fiam
Como fibras coloridas
Tecendo um só cordão.
Assim, somos no espelho
Um emaranhado novelo.
Somos o sono profundo e o desvelo…
Uma estranha união.

Até mesmo o mundo reflete
A nossa oposta comunhão.
Quando nele eu sou silêncio,
Você é todo multidão.
E quando eu me faço palco,
Você vira contemplação.
Você é um raio
E eu sou trovão.
Você, encosta macia
E eu, talássica escuridão.

E vendo-me assim,
Nesse oposto refeito,
Eu percebo o medo
Da morte em degredo
Refletido como um fantasma
Da minha criação.
É ele que me consome
Ocupando minha voz,
Meu pensar e meu peito,
Me lembrando que outrora
Eu me fiz sua morada,
Sua casa… Seu leito.

Mas o reflexo me acalma:
Teu olhar me alcança
Com tuas íris em lança
E derrete meu medo,
Atravessando o portal
De vidro liquefeito.
E, rendido à pujança
Dos teus olhos perfeitos,
O medo me vaza,
Me sai rarefeito,
E eu sinto uma dor em pontada
Anunciando o feitiço desfeito.

E afinal, desatado o nó,
Vejo em ti meu reflexo brilhar -
Teu olhar me reconduz
Tornando-me pura luz
Na tua caverna pupilar.
E, vertido à tua imagem,
Me desfaço em estilhaço
E preencho o espaço
Com as estrelas que sou e que faço
Refratado em você
E no teu amar.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

Livro dos Mitos

(Night Ride Across the Caucasus - Loreena McKennitt)

Caminho no vale das minhas sombras
Me perdendo de mim
Sem me desencontrar.
O farol que ao longe me guia,
Embora certeiro,
Parece um engano -
Sua luz se difusa na névoa
Criando miragens de vapor
Que dançam como fogo na escuridão.
Sou dos corações que pouco sabem
Mas muito creem.
Sou quase inteiro
E ainda assim completamente incompleto.
As minhas certezas desmancham como areia fina
Que escorre na ampulheta do tempo
E repousa fluida e firme
Criando um sustento inconcreto para meus pés.
Eu falo e sou -
Eu calo e ressoo.
Sou a viagem pelos cânions
Das pinturas rupestres
Que contam uma história ancestral,
Cujas palavras esquecidas
Se rememoram apenas no inconsciente.
Sou a vida que morreu
E a morte que escolheu florir de vida.
Sou a figueira seca
Cujos frutos são doces como a salvação.
Sou integração desintegrada -
O sopro frio da monção,
A queimadura da neve,
A fechadura aberta,
A cidade deserta,
A alma desnuda
E a carne que a reveste.
Sou as passagens desconhecidas
Do livro dos mitos -
Sou os ecos silenciosos
Que vazam dos seus versos
Como revelações sagradas
Cantadas em tons inauditos.
Sou a jornada secreta
Que sobe entre curvas e quedas.
Sou os olhos marejados
Da água salgada
Que, ao turvar minha vista,
Se-me revelou.

Olhos Abertos

Quando abri meus olhos,
Te encontrei estirado
Em meio aos lençóis
Com a pele vermelha
Da maresia quente
Que se embrenhava
Através das cortinas.
Notei teu sorriso
Lascivo e dormente
Querendo acordar
E me derreti,
Descrente de mim.
Toquei teus cabelos luzidios,
Ouvi teus suspiros macios
E quase me convenci
Que teu rosto divino
Era uma miragem solar.
Mas ali estavas,
Todo ensolarado
E, no entanto, encarnado,
Deitado ao meu lado
Como um encanto alado
Nascido de Apolo
Num dia de afago.
Foi quando soprou da janela
Uma brisa sutil
Trazendo lembranças
Da noite vadia
Em que dançamos
Fazendo lambanças
E pintando aquarelas
Com os nossos passos
Em meio às vielas
Amareladas de luar.
E, sem te acordar,
Acariciei tuas costas
E recordei as encostas
Onde nos sentamos
Ao amanhecer
Para sentir o mar
Ribombando revolto,
Perolando o areal
E cobrindo o mundo
De ternura e sal.
E quando tua voz
Enfim me chamou
Lembrei-me, afinal,
Do fogo em teu toque,
Teu beijo e teu choque
Fazendo meu corpo
Tornar-se teu lar.
E então desejei
Com tudo que sou
E com tudo que sei
Que, ao fechar os olhos,
Eu não despertasse -
Que ficasse no sonho
De estar ao teu lado
E, rendido e encontrado,
Me incendiar.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2025

Caminho da Selva

(Love in Portofino - Dalida)

Quero escolher com você
O caminho da selva.
Quero te levar pra percorrer
A trilha secreta que se embrenha
Por entre a ramagem dos meus percalços,
Cheia de segredos e vícios passados,
Fluindo em curvas sob as folhas úmidas.
Quero encontrar, com você, no caminho
As orquídeas ocultas que o tempo esqueceu
E ver com assombro os venenos coloridos
Escondidos nas frestas do matagal.
Quero me atravessar te levando comigo
E ao fim da jornada contigo alcançar
A saída invisível que leva pro mar
Como uma janela aberta na alma
Deixando a maresia quente entrar.
E quero banhar-me de água salgada,
Lavar-me da terra batida da estrada,
E me entregar nos lençóis marinhos
Ao sonho divino de te conhecer -
De perder-me no teu espaço
Entre o sol e as ondas,
Sentir teu calor,
Ouvir teu amor
E com você
Derreter
.


domingo, 23 de novembro de 2025

Sopro

(November - Max Richter)

Ouvi num sopro do vento
A tua voz
Me chamando como um rio.
O som veio
E me conduziu
Por um sinuoso veio de lembrança
Que fluía, descendo e descendo,
Pelos labirintos do meu arvoredo
Buscando um remanso
Onde desaguar.
Ele me chegou num sussurro,
Como um segredo
Mal escondido
E, no entanto, perdido em degredo
Em meio às palavras
Que antes não quiseste me dar.
Ele veio num estrondo,
Num furor de trovão se impondo
Por sobre as copas do mundo
Anunciando a tempestade
Que me queria inundar.
Algo se esconde em aberto
No eco incerto
Que da tua boca escoa
Feito nuvem de garoa
Cobrindo a terra e o mar.
E, mesmo que dúbio, o som me invoca,
Toma forma em meu peito
E demanda passagem
Criando raízes e abrindo ramagem.
Ele rasga meu corpo
E pra si faz morada
Por sobre minha pele
Feito tatuagem.
E então sinto em minha carne
A tua miragem
De chuva suave
Começar a cair
E apagar meus entraves:
Ela molha meus cabelos,
Meus ombros e dedos,
Escorre aos joelhos
E chega aos artelhos,
Banhando-me inteiro
De devaneios
Desajuizados.
E por loucos que sejam
Os meus pensamentos
Debaixo da chuva,
Eu sei…
Ouço tão clara a tua voz.
O vento não mente.
Escuto daqui a entrega latente
Que em ti se há gestado
E outrora, por medo,
Havias ocultado.
Tua coragem secreta
Respinga em meus galhos
E em mim se conecta.
Inspiro teu orvalho
E respondo no vento
Com um sopro discreto:
Achaste-me aberto,
À espera entre os olmos.
Vem e me busca
Assim, encharcado,
Sob as folhas ocres
Do nosso passado.

terça-feira, 11 de novembro de 2025

Succubus

(Berghain - Rosalía)

O jardim se revela selva de segredos.
Seus galhos floridos projetam sombras disformes;
Suas folhas sussurram ameaças contidas;
O chão se encharca de areia movediça.
Algo se esgueira entre as frestas escuras.
Sou eu
E não sou.
O espelho d'água mente -
Algo em suas entranhas me estranha;
Uma fera me caça;
Uma ferida me esgarça.
O silêncio me fala -
Ele vaza do corpo,
Dos olhos
E das palavras.
Num encanto enigmático,
Transbordo do que não dou.
A mata se encerra.
Os sentidos escurecem.
Ele está aqui
E me devora.
E, devorado, sucumbo ao súcubo.
Eu sou o que sou e não sou.
Desapareço no mundo dos sonhos
Sob o signo de desejo e sangue
Do coração arrancado.

segunda-feira, 3 de novembro de 2025

Poema do Louco

Vamos, vamos, meu amigo,
Façamos as coisas dessa maneira.
Já se disse - ou talvez não disseram -
Que quem ri por último,
Ri primeiro.
Sejamos, então,
Ridículos.
Patéticos.
Sejamos os romancistas de esquina,
Que jogam seus panfletos incendiários
No meio da rua
Para que, ensopados e amassados,
Eles sejam lidos apenas por ratos.
Sejamos os gatos que caçam sem cão
E apanham apenas novelos de lã.
Sejamos a linha seguinte do verso
Que esquece a rima
E acaba rimando o reverso.
Ria-se, meu caro amigo,
Do completo desastre em que te hás colocado.
A perdição, afinal, também é um achado!
O poema perfeito,
Te digo sem nenhum julgamento,
É o poema do perfeito otário.
Brinque-se, então, de escrever
E viver
E amar.
Brinque-se de declamar!
As cidades estão cheias de loucos
Profetizando em alto e bom tom o fim do mundo.
Façamo-nos loucos!
Sejamos mais um dos que gritam
A plenos pulmões
Seus sentimentos caducos.
Façamos poesia da morte do poema!
Façamos amor na calçada em Moema!
Rasguemos o livro e quebremos a pena!
Amanhã os garis recolhem os resquícios da festa,
Catando o papel picado que desceu a valeta
Até chegar em Borborema.
E, acabado o carnaval,
Prometo-te muita seriedade
Nos novos andores;
Muitos ardores poéticos austeros,
Muitos pensamentos severos.
E também amores - todos bem modernos.
Atuaremos outra vez no Municipal
Entregando uma performance monumental.
E mal lembraremos das nossas antigas juras
De sentimentos eternos
Correndo logo abaixo do nosso sucesso
Nas entranhas do Anhangabaú.
Ficarão somente os resquícios da festa de hoje:
Será tudo como papel crepom
Picotado, vencido e apagado,
Feito uma piada sem nexo.
E ficará, é claro, este riso
De quem se entregou por engano
E viveu seu erro por completo.

domingo, 26 de outubro de 2025

O Melhor de Todos os Poemas de Amor

(Make You Feel My Love - Adele)


Quis escrever para você o melhor de todos os poemas de amor,
Mas as referências de amor
De repente me parecem inapropriadas e vazias.
Amar, no meu pretérito imperfeito, era verbo pessoal:
Falava de mergulhar em mim, através deles,
Para me encontrar
E, no meu encontro, rodopiar um amor a dois,
Daqueles que se ilham em paixões solitárias,
Que se enchem nos pulmões,
Explodem seus rojões
E se perdem nos rincões da alma.
Meus amores passados foram amores do Ego:
Amei-os para amar-me e, amando-me, me bastar.

Mas hoje eu conjugo amar diferente.

Amo-te, sim, como outrora amei:
Num doce delírio da emoção,
No suave contento e no furor do momento.
Amo querendo ouvir da tua boca as palavras que forem,
Querendo ver nos teus olhos os sorrisos que houverem
E sentir das tuas mãos os carinhos que elas quiserem.
Mas, quando me banho nas tuas amanças,
Eu quero brincar com as crianças.
Quero abraçar meus amigos.
Estar em família.
Quero abrir portas no supermercado
E sorrir para desconhecidos na rua.
Quero ajudar quem precisa
E ensinar minha sabedoria.
Quando eu te amo,
Eu quero pertencer ao mundo.
Pois este amor me dá esperança:
Este amor é andança,
Uma dança que me desabrocha,
Me tira de mim
E enfim me coloca onde sempre pertenci.

Amar-te, meu amor, é, sim, para mim
E para você.
Mas também é mais
- Muito mais -
Do que eu jamais poderia conceber em um poema de amor.
O mundo que o saiba.
A terra que o diga.
O vento que o cante.
E que ressoem na humanidade, pelo tempo que o tempo permitir,
Os frutos desse florescer.