sábado, 3 de janeiro de 2026

Espelho

(Fantasia in D Minor, K. 397 - Wolfgang Amadeus Mozart)

Amar você é como mirar um espelho.
Eu me vejo em você,
Só que vejo diverso -
Somos quase o reverso,
Uma contradição.
Nosso amor é um poema dissonante,
Um dissenso harmonizante...
É o solo fecundo da divinação.

Pois as nossas cadências,
Embora distintas, se alinham -
No movimento, elas se fiam
Como fibras coloridas
Tecendo um só cordão.
Assim, somos no espelho
Um emaranhado novelo.
Somos o sono profundo e o desvelo…
Uma estranha união.

Até mesmo o mundo reflete
A nossa oposta comunhão.
Quando nele eu sou silêncio,
Você é todo multidão.
E quando eu me faço palco,
Você vira contemplação.
Você é um raio
E eu sou trovão.
Você, encosta macia
E eu, talássica escuridão.

E vendo-me assim,
Nesse oposto refeito,
Eu percebo o medo
Da morte em degredo
Refletido como um fantasma
Da minha criação.
É ele que me consome
Ocupando minha voz,
Meu pensar e meu peito,
Me lembrando que outrora
Eu me fiz sua morada,
Sua casa… Seu leito.

Mas o reflexo me acalma:
Teu olhar me alcança
Com tuas íris em lança
E derrete meu medo,
Atravessando o portal
De vidro liquefeito.
E, rendido à pujança
Dos teus olhos perfeitos,
O medo me vaza,
Me sai rarefeito,
E eu sinto uma dor em pontada
Anunciando o feitiço desfeito.

E afinal, desatado o nó,
Vejo em ti meu reflexo brilhar -
Teu olhar me reconduz
Tornando-me pura luz
Na tua caverna pupilar.
E, vertido à tua imagem,
Me desfaço em estilhaço
E preencho o espaço
Com as estrelas que sou e que faço
Refratado em você
E no teu amar.

Nenhum comentário:

Postar um comentário