domingo, 26 de outubro de 2025

O Melhor de Todos os Poemas de Amor

(Make You Feel My Love - Adele)


Quis escrever para você o melhor de todos os poemas de amor,
Mas as referências de amor
De repente me parecem inapropriadas e vazias.
Amar, no meu pretérito imperfeito, era verbo pessoal:
Falava de mergulhar em mim, através deles,
Para me encontrar
E, no meu encontro, rodopiar um amor a dois,
Daqueles que se ilham em paixões solitárias,
Que se enchem nos pulmões,
Explodem seus rojões
E se perdem nos rincões da alma.
Meus amores passados foram amores do Ego:
Amei-os para amar-me e, amando-me, me bastar.

Mas hoje eu conjugo amar diferente.

Amo-te, sim, como outrora amei:
Num doce delírio da emoção,
No suave contento e no furor do momento.
Amo querendo ouvir da tua boca as palavras que forem,
Querendo ver nos teus olhos os sorrisos que houverem
E sentir das tuas mãos os carinhos que elas quiserem.
Mas, quando me banho nas tuas amanças,
Eu quero brincar com as crianças.
Quero abraçar meus amigos.
Estar em família.
Quero abrir portas no supermercado
E sorrir para desconhecidos na rua.
Quero ajudar quem precisa
E ensinar minha sabedoria.
Quando eu te amo,
Eu quero pertencer ao mundo.
Pois este amor me dá esperança:
Este amor é andança,
Uma dança que me desabrocha,
Me tira de mim
E enfim me coloca onde sempre pertenci.

Amar-te, meu amor, é, sim, para mim
E para você.
Mas também é mais
- Muito mais -
Do que eu jamais poderia conceber em um poema de amor.
O mundo que o saiba.
A terra que o diga.
O vento que o cante.
E que ressoem na humanidade, pelo tempo que o tempo permitir,
Os frutos desse florescer.

terça-feira, 21 de outubro de 2025

Perdoa-me, coração

(Love in the dark - Adele)


Perdoa-me, coração.
Ouço tua voz
Ribombando a cada batida,
Ressoando através dos teus átrios
Como uma canção e um pedido
Que oxigena cada fibra da minha emoção
Falando do que te vaza
E corre por entre as artérias
Fazendo meu corpo vibrar.
Escuto, puro e claro,
Teu desejo latente,
Pujante,
Abertamente declamado.

Mas eu preciso de tempo.

Preciso que a tua potência
Corra a distância da mente,
Percorra seus labirintos em rodamoinho,
Preencha seus espaços vazios
E então sane minhas dúvidas,
Sare meus medos
E cubra as feridas
De um passado
Que, embora antigo,
De repente parece que há tão pouco foi cicatrizado.

Perdoa-me a indecisão.
A resistência.
A negação.
Perdoa-me os erros tantas vezes revividos
Que me calcificam
E lacinam teu intento
Com lápides de desalento.
Perdoa a repetição dessa velha caução.
Perdoa as cavernas do meu pensamento
Por se recusarem à vida
Após tantas Eras perdidas
Num silêncio mortal.
Perdoa-me por não me libertar
E nem me permitir navegar
Em águas profundas,
Quentes, escuras
E desconhecidas.
Perdoa-me por sucumbir ao temor de naufragar.

Se preciso for, entrego-te todos os tesouros
Que escondi sob a carne.
Desvelo outra vez as passagens doloridas
Que fingi esquecer
E faço, no tear dos amores,
Um novo acalanto pra te aquecer.
Mas peço que não me abandone.
Não desista de mim,
Não silencie a tua fome
Ainda que eu me recuse a dizer o seu nome.
Minha fraqueza é por ele -
Apenas por ele.
Para ti eu sou forte.
A ti recolho.
A ti escolho
E por ti me renovo.
Ainda que fraco,
Ainda que estúpido,
Ainda que, em meu pior, eu te dilacere.
Ainda que minha força não te baste.
Perdoa-me mais este contratempo.
Tomara que, contra ele, venha o tempo…
E que o tempo nos limpe,
Que nele eu me salve
E me torne um receptáculo pleno,
Vivo outra vez,
Para fazer tua voz ecoar
Sem recorrer a desculpas
E jogos de sombras e ocultação.
Perdoa-me, coração,
Por te pedir por mais tempo
E não me render ao momento.