segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

Livro dos Mitos

(Night Ride Across the Caucasus - Loreena McKennitt)

Caminho no vale das minhas sombras
Me perdendo de mim
Sem me desencontrar.
O farol que ao longe me guia,
Embora certeiro,
Parece um engano -
Sua luz se difusa na névoa
Criando miragens de vapor
Que dançam como fogo na escuridão.
Sou dos corações que pouco sabem
Mas muito creem.
Sou quase inteiro
E ainda assim completamente incompleto.
As minhas certezas desmancham como areia fina
Que escorre na ampulheta do tempo
E repousa fluida e firme
Criando um sustento inconcreto para meus pés.
Eu falo e sou -
Eu calo e ressoo.
Sou a viagem pelos cânions
Das pinturas rupestres
Que contam uma história ancestral,
Cujas palavras esquecidas
Se rememoram apenas no inconsciente.
Sou a vida que morreu
E a morte que escolheu florir de vida.
Sou a figueira seca
Cujos frutos são doces como a salvação.
Sou integração desintegrada -
O sopro frio da monção,
A queimadura da neve,
A fechadura aberta,
A cidade deserta,
A alma desnuda
E a carne que a reveste.
Sou as passagens desconhecidas
Do livro dos mitos -
Sou os ecos silenciosos
Que vazam dos seus versos
Como revelações sagradas
Cantadas em tons inauditos.
Sou a jornada secreta
Que sobe entre curvas e quedas.
Sou os olhos marejados
Da água salgada
Que, ao turvar minha vista,
Se-me revelou.

Olhos Abertos

Quando abri meus olhos,
Te encontrei estirado
Em meio aos lençóis
Com a pele vermelha
Da maresia quente
Que se embrenhava
Através das cortinas.
Notei teu sorriso
Lascivo e dormente
Querendo acordar
E me derreti,
Descrente de mim.
Toquei teus cabelos luzidios,
Ouvi teus suspiros macios
E quase me convenci
Que teu rosto divino
Era uma miragem solar.
Mas ali estavas,
Todo ensolarado
E, no entanto, encarnado,
Deitado ao meu lado
Como um encanto alado
Nascido de Apolo
Num dia de afago.
Foi quando soprou da janela
Uma brisa sutil
Trazendo lembranças
Da noite vadia
Em que dançamos
Fazendo lambanças
E pintando aquarelas
Com os nossos passos
Em meio às vielas
Amareladas de luar.
E, sem te acordar,
Acariciei tuas costas
E recordei as encostas
Onde nos sentamos
Ao amanhecer
Para sentir o mar
Ribombando revolto,
Perolando o areal
E cobrindo o mundo
De ternura e sal.
E quando tua voz
Enfim me chamou
Lembrei-me, afinal,
Do fogo em teu toque,
Teu beijo e teu choque
Fazendo meu corpo
Tornar-se teu lar.
E então desejei
Com tudo que sou
E com tudo que sei
Que, ao fechar os olhos,
Eu não despertasse -
Que ficasse no sonho
De estar ao teu lado
E, rendido e encontrado,
Me incendiar.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2025

Caminho da Selva

(Love in Portofino - Dalida)

Quero escolher com você
O caminho da selva.
Quero te levar pra percorrer
A trilha secreta que se embrenha
Por entre a ramagem dos meus percalços,
Cheia de segredos e vícios passados,
Fluindo em curvas sob as folhas úmidas.
Quero encontrar, com você, no caminho
As orquídeas ocultas que o tempo esqueceu
E ver com assombro os venenos coloridos
Escondidos nas frestas do matagal.
Quero me atravessar te levando comigo
E ao fim da jornada contigo alcançar
A saída invisível que leva pro mar
Como uma janela aberta na alma
Deixando a maresia quente entrar.
E quero banhar-me de água salgada,
Lavar-me da terra batida da estrada,
E me entregar nos lençóis marinhos
Ao sonho divino de te conhecer -
De perder-me no teu espaço
Entre o sol e as ondas,
Sentir teu calor,
Ouvir teu amor
E com você
Derreter
.