Vejo voando por aí mariposas coloridas
Bailando em círculos virtuosos
Nas correntes do ar.
Vejo-as complicando acrobacias,
Completando fantasias estapafúrdias,
Galanteando fúrias estúpidas
E loucuras olhudas;
Vejo-as num desembaraço
Que não combina com os bagaços
Por elas engolidos.
Vejo e recordo os dias
Em que não fui fuligem -
Fugiram de mim os encantos.
Vejo e me temo bruxa
Atabalhoando asadas burras entre os galhos -
Prefiro pousar num tronco poluído
Refletido na imagem de mim
Escondida em cores sinceras
Sem alardear corvos
Ou alar misérias.
sexta-feira, 8 de julho de 2016
Miséria
quarta-feira, 6 de julho de 2016
Revolução dos nichos
A rua pulsa em vidas estranhas à meia-noite.
Quem são esses frascos de sopro enfornado?
Os fumantes deveriam se unir no abandono
Para aquecer histórias apartamentadas
Em fogueiras de revolução:
Basear os cotidianos avulsos
Numa só brasa passando de mão em mão.
terça-feira, 5 de julho de 2016
Serei sereia
A dialética do dia dita
Que serei celeste em solitude
Seleto na amplitude de mim
Sereia do lago
Guarita
Ponto G.
segunda-feira, 4 de julho de 2016
Caso o acaso
Cada passo de cansaço que calço
Na calçada escura dessa vida anoitecida
Faz um estardalhaço de mim
Sem que além dos pés exploda
Qualquer latejo fraco.
Qualquer frasco de fino vidro
Já teria ruído,
Mas disso não me faço -
Não me é fácil.
Eu desconto as horas e espero -
Não a morte, não o fato,
Mas o instante de divinização;
Creio em mim além do espaço,
Aquém de um abraço,
Agarrado à vida pelo baço
Sem sair nem perder
Só vencer a finura lisa do fraquejo que habito -
Força do hábito,
Humano não se sabe frágil -,
Quem sabe dar um tropeço em falso
E a partir daí misterioso encalço.
sábado, 2 de julho de 2016
Disparo
De repente paro.
Percebo que sim, parei.
Outra vez ainda parei.
Sempre que saio da sombra das cerejeiras
Enfio-me sob um teto de falsas estrelas.
Sempre que saro dos arrependimentos passados
Não saro.
Sempre parado no tempo
Sem conseguir redimir o ser
Redomo encostado ao largo da via.
Mesmo querendo bom grado
Que é isto sem teu lado
Rasgado de mim como cera quente
Sem afago?
Faz tempo que demorri;
Faz tempo que despassado;
Faz tanto tempo que até regredi
A tempos que não vivi
Para ver se pairando em passados tão mais longínquos
Parar não causa enfado;
Que até assumi vidas alheias a mim
Para ver se caindo em carne estrangeira
A carne que tive não range rouca sem óleo
Nos risos assombrados
Estagnados em ti.
quarta-feira, 29 de junho de 2016
Expansão
Um corpo, legião de espíritos;
Todas as sensualidades
Num instinto selvagem de má educação.
A complexidade do silêncio em voz.
A cadência da personalidade em decaimento constante.
O breu de um poço sem fundo.
O desastre do ego nuclear.
Garganta de Guantánamo.
Guardião do erro, bastião do impropério.
A bandeira de um império esquecido incorporado
In loco corpus,
Locust of dust.
Panteão.
terça-feira, 28 de junho de 2016
Don't Hurt Yourself
Que os terreiros estão abertos
Os deuses da fúria estão em polvorosa
O santuário avermelhou -
Mais um ciclo completo retorna à casa da descompaixão;
Mais uma vez desumanizada em demônio;
De novo o enfaixamento dissolve em ventosas de fogo
E carimbo um selo na testa.
Ouse adentrar os dois olhos do furacão -
Este é o terceiro aviso.
Ouse provocar mais uma íris no dragão -
Vinde à tentação do desassossego.
Vinde, tentação!
Vinde com tuas águas contrárias para me neutralizar.
As voltas aceleraram, quero ver intentares
Sem incineração.
Ateu místico
Deum mortus est.
Suas cinzas desgarradas do Todo vagaram sobre a Terra.
Nos pequenos redemoinhos erigidos pelo vento
Subiu um templo apócrifo de divino recoberto de barro -
A ele o nome de humano se deu.
A cinza morta se manifestou
Queimando em sonhos repletos de simbologia terrena
Num inconsciente coletivo.
Isto não é Deus.
Isto é o limiar de um altar de fogo
Ardendo um touro branco imortal
Cuja carne resfria em carvão
Vazando pelas beiradas
Eternamente se renovando e decaindo
Expelindo a argamassa do tempo sobre o chão
Para que ele em novo ritual remoifique um altar
No moinho da vida
Até o fim chegar.
Hominis mortus est.
Pupilar
Minhas fases não são lineares
Meus amores são problemáticos em demasia
Anestesia pra quê?
Sonho de um homem que muda de rosto
Entre todos que amei
E ele em contrapartida assiste uma tela transparente
Finalmente vendo pelos meus olhos
Saindo do meu plano enigmático para o mundo
Ele e eu nas minhas pupilas espelhadas
Onde se encontram os espectros de gente
E dois se fundem num buraco negro
Para devorar o universo numa única visão
Criar a dimensão paralela em que enfim resido
Meu lar não está aí no fundo nem aqui no infinito
Está na superfície nebulosa e ondulante.
Singularem Amoris
Você não é único.
Veja quantos sofrem por amores perdidos;
Quantos amam escondido;
Vendem a torto e direito os entes de cada canto da mente;
Despedaçam o corpo para acomodá-la;
Rasgaram a túnica em vão;
Engoliram vinho seco demais;
Levam o vício a um novo patamar
Deixando rastros de suas dores em outros corpos
Até o gozo secar na ponta da língua,
No canto dos olhos,
No fundo do crânio
E nas letras tortas de amores garranchados na lápide daquele.
Você não é único.
Eu já amei outros sofrimentos perdidos;
Já tive amores proibidos;
Vendi a torto e direito o meu carinho em vários cantos do mundo;
Desabrochei o corpo para acomodá-los;
Rasguei vestes de púrpura para soltar a pele;
Entornei safras requintadíssimas;
Levei o vício a outros patamares
Deixando rastros de felicidade em outros corpos
Até o gozo deles secar na ponta da língua,
No canto dos olhos,
No fundo do crânio
E as letras tortas garrancharem a lápide do futuro.
Você não é único.
Ele tem outros amores que se perderão;
Teve amores na penumbra;
Vendeu a torto e direito um amor que pensavas teu noutros mundos;
Repartiu o corpo como pão para se acomodar;
Deixou as traças carcomerem a toga dourada que lhe deste;
Tomou vinhos bons e ruins;
Encontrou vícios de outro patamar
Criando seus próprios rastros de dor e felicidade
Até o teu gozo secar da ponta da língua,
Do canto dos olhos,
Do fundo do crânio
E só restarem as letras tortas garranchadas na lápide de um amor que dele se foi.