O céu está silencioso essa noite.
Sua escuridão parece desnuda.
Não vejo estrelas a lhe chamuscar
Como faróis em ilhas distantes
Brilhando promessas incertas
Na imensidão.
Sua escuridão parece desnuda.
Não vejo estrelas a lhe chamuscar
Como faróis em ilhas distantes
Brilhando promessas incertas
Na imensidão.
Não.
A noite hoje é mar negro
– Um oceano inerte, quase em paz:
Não há ondas revoltas
Nem seres rondantes
Espreitando a superfície
Fazendo-me caça
Ou sequer caçador.
Não há sons esguios,
Nem aves rasantes
Com anúncios de terra
Ou ventos constantes.
Há só eu e o espelho
De águas profusas
Sem mensagens ocultas
Nem destinos a explorar.
É estranho
Confrontar-se a si mesmo
Assim, sem entremeios
– Sem filtros nem freios –
Refletido no mundo,
Revelado nos astros
Que nem estão lá.
É estranho descobrir-se tão humano,
Tão cheio de fluxos
Que rodam confusos
E criam uma imagem
De calmaria,
De estuário e mirante,
Quando tudo é inconstante
– É uma soma de erros
Que se pensam roteiro,
Um traçado certeiro
De regresso ao lar.
Acho que sempre quis retornar,
Mas não sei bem a quê.
Não sei se tenho casa
Ou alguma pertença
Em algum outro lugar
Que não o oceano
Em seu vasto degredo,
Seu silencioso aconchego
De juras eternas
De um novo horizonte
Do lado de lá.
Não sei se me escolho,
Ou se só sigo a nave
Conforme comandam
Os deuses ocultos
Que ora sopram minhas velas,
Ora me enchem de entraves,
Sem bem me dizer
Onde vão me atracar.
Acho que quero me reencontrar
Perdido no espaço,
Rendido ao cansaço
De comigo mesmo
Tanto pelejar.
Acho que quero só estar
Na minha barca parada,
Fendida na estrada
Entre a dor e a alegria
De não me completar.
É isso que me diz
O mar negro pendendo no céu:
Eu não quero o que quero.
Quero ser meio,
Eterno rateio
Entre os senhores do meu submundo
E as memórias do meu futuro.
Quero algo outro, mas quero isso tudo.
E, na luta, me inteiro
E fico.
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