segunda-feira, 27 de agosto de 2018

Poema Farsi

Um dia passei debaixo da árvore em frente à portaria do prédio
Onde morava havia tantos anos que já nem sabia
Prestar atenção nela,
E, quando olhei para cima,
Os fachos de sol amarelo cortando
O verde de suas folhas antigas
Me fizeram ver que habito um poema persa de amor e aventura
Há muitas eras -
Só faltava escorrer sobre os olhos a tinta sagrada
Do filtro que revelaria
Quanto subestimo a minha realidade,
Mergulhando-a num mar de normalidade
Ao invés de poesia.

domingo, 26 de agosto de 2018

Ventre Colorido


Que você tenha florido
Que tenha morrido
Por dentro
Pra ressuscitar em adubo
No ventre colorido
Do pensamento.

sábado, 25 de agosto de 2018

Medo da Luz

Temo que dizer
As palavras por inteiro
Sem ruir as paredes que o silêncio
Assegurou.
Tenho um fim
Tatuado na contracapa do corpo,
Mas manchado de passado
Decaindo num novo começo
De quase nada
Porém encantado.
Temo que não,
Não sairei da penumbra
Da estaticidade
E da minha verdade -
Ela continuará aqui,
Encoberta em plena luz
Para que a agarres
Se quiseres iluminá-la afinal.

Idólatras

Já me disseram tantas vezes
Pra não me entregar à adoração -
Que a idolatria corrói a alma
E destrói o coração -
Mas por que não?
Há males bem piores pelos quais morrer.
Todos temos bezerros de ouro,
Cada qual com seu altar
Onde queimar a carne e se entregar,
Qual o problema de se incendiar por outro?
Se sei da minha religião,
Se entendo seus efeitos sobre mim,
Se conheço as ramificações
Do meu broto em carmim,
Por que não queimar?
Se sei externar a dor
E, arrancado o toco,
Me recriar,
Por que não me deixar ser assim?
Cada qual com suas árvores sagradas brotando do peito,
Cada qual com sua gente morando dentro
E sua cegueira selecionada.
Cada um deveria saber do deus que escolheu.

segunda-feira, 20 de agosto de 2018

Amenidade

Tudo que se move é tão pequeno
Que me ameno.
A angústia ainda grita alguma coisa
Encravada na foice
Vislumbrando a lavra,
Mas o arremate já não é tão afoito
E eu não me açoito com a mesma intensidade.
Acho que é a idade -
Talvez esta outra cidade,
Ou mesmo a minha morosidade.
Talvez o tempo do corpo esteja se adequando
Ao tempo do mundo
E o sincronismo vai batendo em cada segundo
Para me anestesiar.
Eu temo o fim do fim de tudo
Onde eu ressoava apocalíptico badalando no ar,
Mas não trocaria a paz da calmaria
Pelo caos da minha arte.
Prefiro poemas um pouco vazios,
Meio apertados em linguagem empobrecida
E cujas ideias penam para escoar.
Prefiro ser quem sou agora,
Mesmo que haja em mim mais silêncio...

Talvez eu prefira o silêncio.

segunda-feira, 30 de julho de 2018

Em Charque

(Big God - Florence + The Machine)

Não dói
Demais
O teu desaparecimento.
Não dói
- Demais -
Pois esta cena eu reconheço;
Já fiz doer igual
Em quem igualmente não mereceu -
Na verdade pior,
Já que eles não tinham a carcaça dura
De fibra mais que madura
Em armadura envolvendo o peito.
Quase não dói, na verdade -
É só um incômodo,
Pois sei a rota que a mente toma
Quando abandona para não ruir.
Sei do silêncio que invoca
Para subsistir
Crendo que a resiliência
Reside em fechar as janelas
E deixar a carne petrificar no escuro
Em escudo.
A única dor
É a de ver refletida num espelho profano
Deitado no chão
A tranca do corpo.
Eu me vejo em ti
E, por mais que te imagine em mim,
A essa altura já sei
Que somos parecidos demais para destrancar as comportas
E encharcar o colchão.

segunda-feira, 18 de junho de 2018

Monetian

I miss love
As a bridge over colors
From a lost vision of Monet.
I miss it as a sickness
And the cure for my afflictions.
I miss the mess my life was made of
When my love brushed through the lines
Without fear of what's to come
And all the joy that filled my time
When all was love
And love alone.

quinta-feira, 17 de maio de 2018

Poema do Futuro

A tua amargura me acusa de erros que não cometi -
Mas vejo cápsulas mergulhadas no vômito
Que estão recheadas de verdades obscuras;
Então nem tudo é dor e mentira,
Mas superar o nojo para engoli-las
Às vezes parece mais do que eu sou capaz de conseguir.
Por enquanto me contento com a capacidade
De ver as verdades semi-digeridas
E temer o futuro onde eu seja tão doente quanto tu
A espumar inconsistências sobre os outros
Pelo que fermentou no interior -
E temer, pior ainda, que eu já esteja no futuro.

segunda-feira, 14 de maio de 2018

Cerveau à la Recherche de Temps

Não há cura para o "em si" -
Apenas a loucura de que se ature
A química desbalanceada
Torcendo que o tempo sobreaqueça a reação
E frite os circuitos numa nova ligação
Com outras doçuras e amarguras cognitivas
Que me degustarei.

terça-feira, 8 de maio de 2018

Garganta do Diabo

(So Afraid - Janelle Monáe)

Tudo se resume a algo muito primordial,
Tão animal que urge um ventre
Onde casulo
Enquanto o mundo ruge
Seus motores sem direção
Garganteando o Diabo no rochedo bruto
E, ao moer, lançando agulhas de arenito
Que tiroteiam a carne de quem passou
Muito perto do fosso escuro
A mastigar os aflitos
No atrito agudo
De dentes só humanos
Mas demasiado monstros para enxergar.