Se ao menos houvesse no mundo
Uma penumbra de luz
Onde as penúrias obscuras da alma
Se escondessem iluminadas,
Expostas,
Enamoradas no encontro encantado
Do sonho com a realidade...
Se ao menos do ser humano
Houvesse um pedaço de humanidade
Onde os desejos retintos
Transparecessem
E se amolecessem,
Extintos pelo seu próprio desfazer
Mergulhado em prazer,
Engolfado em alegrias e lágrimas
Que escorressem por sobre meu Ser
Sem dúvidas ou convicções...
Se ao menos as assombrações do espírito
Se materializassem
E caíssem maduras como frutos famintos,
Ávidas por cultivar o chão
E brotar nele a vida que nasce da morte rarefeita
E enfeita a boca da terra
Com as flores da sua eclosão...
Se ao menos dos sonhos restasse
O pedaço do nada
Que transita entre o sono e a vigília
E me desperta com tudo que me completa,
Se ao menos desse lodo de inconsciência
Desabrochasse um fado
Cantado nas vozes secretas da realização...
Então eu estaria encontrado,
Restaria enfim contradito
Na minha declamação
E a vida teria sentido
E eu poderia morrer.
Mas, do fundo desse meu luto
Repleto de contemplação,
Ainda brotaria incompleto
Um ramo de perturbação;
E enraizado nele eu reviveria
Um anseio abjeto
Que me incomodaria uma grata nova caução
Que eu perseguiria
A bordo da minha nau
Navegando as violentas ondas do mundo
Num eterno estado de confrontação.
segunda-feira, 10 de outubro de 2022
Desejos de Vida e Morte
segunda-feira, 3 de outubro de 2022
Segredo
A ti confiado
Em um estado
De silencioso degredo:
Foi o teu afago
Entregue de soslaio,
Escondido nos teus olhos,
No teu corpo defensivo
E no que você omitiu, calado,
Que me deixou cativado.
Foi a tua entrega,
A tua doçura disfarçada,
A tua boca adocicada
Que me tirou o chão.
Foi o teu abraço,
O teu sensível laço,
Que me tirou do tempo e espaço
E me enfeitiçou.
Foi o teu amar secreto,
Discreto e machucado
Que me fez desarmado
E roubou meu coração.
E assim que,
Quando penso nas andanças
E nas danças sob a lua,
São tuas as lembranças
Que me assombram
De um desejo de viver
E reviver contigo
Os passos escondidos
E fazê-los revelados –
Fazê-los ensolarados
Sem sombras ou esconderijos.
Tempestades
Que moldaram meu amar.
Mas, por mais que o tenham lapidado
Contornando seu caminho
Num desenho por vezes dolorido,
Repleto de alertas
Dos deslizamentos
Que tão facilmente reabrem machucados...
Por mais que tenham me formado
Esculpindo a pedra porosa de mim,
Fazendo-me esponjosa carne
Que se embebe e avinagra
Quando as ondas vêm
E molham minhas cavernas
Com seu salgado rebentar...
Por mais que às vezes creia empedernido
Meu coração de espera;
Que pense inflexível
Meu agarro a dores velhas
E a traumas já passados;
Por mais que me canse do meu esquivo amor de horas
Que se apaga como o céu
Quando as sombras nebulosas
Lhe vêm, pela manhã, amargurar...
Por mais que todo o meu ser seja moldado desse estupor,
Ainda corre entre seus átrios
Um jorro vermelho de vida
Pulsante, furiosa e abrasiva
Que, de vez em quando,
Derrete meu penedo amargo
E faz, outra vez, fluir em mim
Como um raio
O estado das antigas monções
Que me encharcavam de carmim
E faziam meus olhos brilhar
De uma paixão fulminante
E um sonho de verão;
Um sonho de tempestades acachapantes
E um tremor que faz ruírem
As pilastras do meu forte
E me faz temer a morte –
Temê-la tanto que quase desejo morrer
De sua canção devoradora.
Um tremor que me faz desejar que, de tanto cantar,
Nas nuvens negras que me lavam o firmamento
E me derreta nos teus braços –
Tu, que não me crês,
Mas que me podes tão bem crer;
Que nem imaginas as tempestades
Que já tens provocado
No meu querer.
domingo, 25 de setembro de 2022
Vento de Ohio
De repente um sopro do vento me trouxe em seu hálito quente a lembrança perdida de um dia de infância em Ohio. Ele tinha um odor de verão outonal – uma mistura de folhas secas, cujos veios craquelantes vertiam um pólen temperado de amarelo sazonal, com o aroma distante e fugaz de protetor solar e suor que exalava do meu próprio corpo e subia às narinas misturado nas voltas bruxuleantes da lufada de ar. A corrente se embrenhou por sob minha camisa, aquecendo-me uma suave e seduzente carícia ao correr seus dedos da minha lombar ao pescoço, gentilmente guiando-me as sensações rumo a um estado de prazer inocente que me transportou de volta à meninez. E eu me surpreendi com a tamanha facilidade com que os sentidos podem dirigir-nos a mente, em seu torpor inconsciente, às direções aleatórias a que seus desígnios fortuitos julgarem momentaneamente mais propícias.
Tanto assim que, tão subitamente quanto veio, o sentimento feneceu conforme a rajada fresca passou, deixando-me apenas o agridoce sabor de uma memória encarnada mas perdida, um sentimento como o de ter em mãos uma pérola brevemente reencontrada somente para outra vez vê-la escorregar e escapar-me com sua oleosidade úmida e inconstante. E a mente, assim estimulada, sentiu a sede dos entes almados; a sede dos entes que anseiam por um retorno do corpo aos estados de tempo e espaço inalcançáveis do longínquo passado – passado que, como um oásis ambulante, vem e vai no deserto do presente segundo seu próprio e insólito projeto de sentimento, sem que se tenha sobre ele qualquer sombra de controle; que deixa em seu rastro a miragem do desejo, do anseio que busca e busca, sem sucesso, por um retorno.
E, em meu desespero por reagarrar o passado perdido, entendi de relance que também esta reação, este presente estado de sequidão desértica, era resultado das amorfas ondas que guiam o percalço do meu pensamento. Também ela era a decorrência daquele bafejo de vento: era sua condição posterior que me fazia agora como a areia que, quando o mar recuou, restou parcamente molhada e sugou ao seu fundo os resquícios da água salgada, tornando-se ainda mais ressecada do que antes estivera, pois, ao ser exposta à cruel destreza dos elementos em concedê-la uma pequena amostra daquilo que jamais poderia ser seu por mais do que alguns segundos, seria natural que reagisse com tamanha exasperação, tamanho apetite e avidez.
Minha inconsistência e leviandade me causaram, então, uma auto-repulsa. Julguei-me por minha fragilidade, minha pequenez frente às intempéries mundanas, minha total falta de controle sobre meu próprio destino. Considerei-me demasiado alienado, incapaz de compreender mesmo o mais simplório dos fenômenos – essa química da fortuna, a física material do acaso, a biologia científica da sequência dos eventos encadenados que, como os grilhões esverdeados que se erguem cobertos de musgo das profundezas cavernosas do mar conforme o maquinário do meu navio gira suas manivelas e roldanas mecanicamente, fazem subir a âncora do meu Ser para que o trilho da vida possa seguir metodicamente o seu percurso pré-estabelecido.
Contudo, também aí encontrei mais um sinal da minha natureza submissa aos desígnios do mistério. Também no meu cientificismo maquinal, na crítica desconstrutiva e cínica, encontrei os indícios da reação responsiva e superficial: afinal, não seria esse niilismo enfadonho e conformado a decorrência natural do estado de amargura e crueza que toma os seres quando confrontados com problemas para os quais todavia não têm respostas boas o suficiente? Não seria essa atitude uma resposta fácil, uma saída simples para a minha questão de liberdade, pela qual me diria “não há como fugir, somos todos fadados ao jugo do destino que se esquiva das nossas mãos”? Ou “não há porque lutar contra a tendência inescapável do arbítrio inconsciente das Eras”? Também essa resposta, com o tempo, se mostrou inconsequente, incapaz de abordar com um mínimo de inteireza a minha existência, de explicar o espírito que ainda jazia ambíguo e confrontacional no fundo de meu peito.
Pois o tempo me mostrava que, viessem tantas ventanias quanto fossem, restava-me ainda no fundo do palato um gosto místico de vida que se sobrepujava aos breves sabores do instantâneo. Com o passar e acumular dos momentos, ia se sedimentando em mim um caule, uma nervura central, que me sustentava elétrico e, lentamente, me encaminhava de volta ao meu cerne, passadas as inconstâncias. Aos poucos o balanço se-me abrandava e a memória daquele vento externo ficava marcada apenas no discreto dançar da minha ramagem mais avulsa. E mesmo nas inconstâncias parecia ainda haver em mim uma envergadura que se-me dobrava somente até os limites de mim, de um “Eu” que se parecia sustentar ainda constante, mesmo que prolixo de infinitos Eus que me povoavam sinfonicamente. Num dia, Eu era exuberante, cheio de poesia e vida, feito de excessos que, logo em seguida, chamavam um outro Eu mais recluso e desafeto, composto de augúrios lamentosos e estranhos arrependimentos; e a ele se seguia um outro cuja conformidade singela e amorosa fazia secar as lamúrias; e um quarto Eu então se sucedia, querendo o silêncio inconcreto de uma solitude contemplativa; e depois vinha aquele que só queria o concreto, o racional e imediato, cuja sede é da coisa talhada em objeto, até que outro Eu ainda se-lhe demandava uma atenção esparsa ao desconexo, como que propositalmente querendo desligar-me da estática do contentamento. E, no meio de todos, corria profunda como um feixe a estrutura central de uma entidade imaterial, difícil de descrever, feita apenas de tempo sobre tempo, escorrendo numa seiva grossa que desce e sobe sem fazer cederem as paredes da pele, sem que os seus contornos epidérmicos, tão singelos e frágeis, sequer imaginem que poderiam sucumbir. Pois que emana nesse sumo a própria essência da conexão, uma ligação atômica e molecular tão poderosa e decidida que não se-me poderia desmistificar sem antes perderem-se as palavras num desatino desconvexo de elucubrações que só aos poetas, em seu sacerdócio enigmático, poderia ser dado tocar.
E, encontrado esse oculto pedaço de mistério pulsando dentro de mim, pude, enfim, considerar-me liberto das sazonalidades aleatórias do alento. Pude, afinal, entender-me inteirado, completo, senhor de mim mesmo, criador do tempo e das próprias intempéries. Pois que apenas assim, feito parte de dentro do amplo mistério, eu poderia sobrepor-me ao mistério de fora e ser livre dos caprichos do vento que me soprou até Ohio; poderia ser livre mas, simultaneamente, ser parte dele e assim esbaldar-me no meu balanço de veraneio outonal.
quarta-feira, 21 de setembro de 2022
Retorno
Àquela distante contemplação do horizonte,
Caindo com o sol poente sobre o mar
E mergulhando na esperança do amanhã.
Meu coração sempre arranha
A superfície de uma sede terçã,
Insaciável,
Inesgotável,
Um ardor que brilha no breu da pupila
Repleto do dom da vida
Que oscila intangente
Na espera intranquila
E ainda assim crente
Na voz da sibila
Que me profetiza
De dias de amor,
De um fogo que me há de abarcar
Com seu calor.
Meus olhos marejam e escorrem
Incertos da orla
E do navegar;
Mas eles sempre retornam
E retomam o sonho,
Tão plenos de um estranho
Estado de antanho,
De quando eu era um menino
E cria em dragões
E voos rasantes
E estranhas canções
Nascidas das entranhas
Das minhas ecoantes cavernas
E suas incessantes pulsões.
Eu sempre retorno à crença
Que me faz criador
De cantos e fados,
Aos meus avultados estados
sexta-feira, 9 de setembro de 2022
sábado, 3 de setembro de 2022
Sinto Cheiro de Mar
Subindo na minha expiração.
Ele nasce no meu distante horizonte,
Onde o sol dissolve em brisa noturna,
E sopra gentilmente por minhas narinas
Em ondas constantes.
Sinto o chão se fazendo areia macia,
Esfarelando como tempo entre minhas mãos,
E mergulho os dedos nos seus lençóis
Que escorrem num ritmo profundo
Do topo das dunas ao coração
Até confundirem-se com os grãos prateados de água
E se perderem na marificação.
Sinto o vento cantando malemolente,
Dedilhando no suor de minha pele
Uma serenata de verão:
Ele canta de noites vadias
Onde a lua corre livre
E os grilos ecoam seus versos
Aquecendo a ligeira canção.
E eu, todo inverso,
Virando paisagem de dentro pra fora,
Me perco, por hora,
Em sentidos que, assim desconvexos,
quinta-feira, 25 de agosto de 2022
Savyasachin
Rebento das tribos de guerra!
Filho da justiça em fúria –
Herdeiro das garras do trovão!
Eis-me servo da luta
Com punhos de aço
E espada na mão!
Eis-me como eco na gruta
Retumbando os tambores
Que exalam do chão!
Eis meu caminho
Traçado por outros espíritos
Tão mais antigos
Que se-me inundam
Da primordial unção!
Eis meu arco à mão esquerda,
As flechas afeitas
Os olhos precisos de convicção!
O campo se estende aos meus pés
E eu já não titubeio:
Eu sou forjado em batalhas,
Guerreiro desfeito do arreio,
Senhor da minha própria expansão!
Sou rocha, vento e centeio:
Sou firme no esteio,
Sou leve e certeiro
E a todo aquele que sob minha guarda
domingo, 14 de agosto de 2022
Dente-de-leão
Quase como uma árvore
Que escalei na infância –,
Com seu jeito ventoso
De escorrer entre meus braços
E balançar minhas folhas,
Fazendo-me um riacho
Que flui suave
Ainda que meus contornos
Sejam duros e marcados
Das pedras que passaram
Arranhando meu tronco
E caíram no cascalho;
Ela me canta um sereno
Que orvalha meus olhos
E dança sobre o mundo
Azulado
Ondulado
E risonho
Embora calado;
Ela me encontra encostado
À sombra de um carvalho
E faz meu traslado
Entre as costas do vivenciado
Soar mais bonito
Na voz de gaivotas
Que esticam minha mirada
Com o som de suas asas
E me levam ao fundo
Do perdido em mim,
Onde encontro uma paz
Feita de nada,
Uma estrada
Que não me enfada;
Nela me junto
E me desintegro
E o peso da alma flutua
Como dente-de-leão
Voando a esmo
Na imensidão.
terça-feira, 28 de junho de 2022
Dunas Estreladas
Essa noite eu me pergunto por você.
Será que daí, fora do tempo, podes me ver?
Será que à sombra do freixo,
No frescor orvalhado em que amanhece
Teu distante pensamento,
Entre as voltas pela lua
E as danças em plena rua -
Será que a memória nua
Da minha boca em boca tua
Nessa hora mais escura
Faz-se reaparecer?
Por onde andas, meu doce afago?
Por que grutas da vida te hás metido?
E, se encontras aqui comigo
Um caminho compartido,
Não me poupas um momento
- Um breve cruzamento -
De amável intento
- Ainda que a mil léguas,
Feito só de sentimento?
Se quiseres, nos encontramos
Apenas nas dunas estreladas
Dos sonhos partilhados
E por lá fazemos o amor
Que ainda ficou por fazer.