domingo, 22 de fevereiro de 2026

Estrela Cadente

 Você chegou a mim
Como uma estrela ao meio-dia:
Veio brilhando feito faísca no azul celeste,
Um raio refletido no espelho do Espaço
Que pousou em meus olhos,
Alargando minhas pupilas
E me enchendo da tua imagem estelar
Cuja luz viajou o desfim do Universo
E aqui me alcançou,
Vindo me cativar,
Me revelar e
Iluminar.

Você me acolhe em teu abraço como um sol nascente:
Tua pele macia conforta,
Teu carinho sedoso me abre as portas
E de repente eu vazo no mundo
Todo o sentimento que eu guarnecia
- Despejo as emoções mais sagradas
Revelando as avenidas do meu coração,
As curvas secretas por onde fluo
E até mesmo as ruas sem vida
Que outrora mantive seladas.

Você me envolve com uma maciez que me deixa dormente:
Em teus beijos eu sumo
E ouvindo tua voz eu me aprumo -
Encontro outra vez a mim mesmo
Trocando contigo palavras,
Essências e estradas;
Eu me redescubro
Forjado num Outro
Que me desenfada
Dos olhos cansados
E da dor da jornada.

E assim, de repente, sou uno:
Com você sou enfim o que quis a vidente
Quando disse que o amor
É a fornalha do mundo;
Contigo incandesço,
Contigo derreto
E transformo meu tudo -
Meu inconsciente,
Meu estado descrente
E minha voz, sobretudo.
Pois contigo transbordo -
Eu declamo fluente
Um verso pungente
Que deseja o futuro;
Eu me acendo no escuro e disparo
Deixando um rastro de luz refulgente.

E então, afinal, me converto em teu igual:
Eu parto da Terra
E viro sideral -
Eu encho o Universo
Com a luz ancestral
Da minha sarça ardente,
Rasgando o pano de fundo
De escuridão do infinito
Com a mortalidade triunfal
De uma estrela cadente.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

Coração de Criança

De repente vejo em mim
Tantas camadas que desconhecia.
Encontro nos vãos do meu infinito espaço
Sentimentos que jamais imaginei,
Emoções que não sabia que tinha,
Cruezas das quais sequer desconfiava.
Há coisas em mim -
Machucados,
Tristezas,
Sangrias -
Que me surpreendem.
Descubro que, de muitas formas,
Ainda sou criança -
Ainda sinto virem à flor da pele
Choros que nem sabia que podia conter.
E eu quero vazar deles
- Preciso vazar deles -
Para me refazer.
Talvez seja pesado, para você,
Ser o conduíte por onde filtro esses meus anseios.
E eu peço que me perdoe
Pela dor compartilhada
No que ela te doa
Quando parecer que não há motivos
Para tanto doer.
Mas saiba que eu reconheço o valor
Do quanto você me doa
Acolhendo meu choro no teu coração.
E saiba, acima de tudo,
Que nada é em vão:
Eu sinto que, aos poucos,
Me lavo contigo;
Que me conhecendo através de você
Eu aos poucos revivo.
Eu me renovo,
Me inteiro
E renasço -
Eu me faço contigo num novo compasso
Cujo ritmo acalanta o meu coração de criança.
E espero que, regido nesse novo ritmo,
Eu também possa te ser acalanto -
Que eu possa acolher tuas dores,
Ninar tua criança
E ser pra você um porto seguro
A te receber com águas tranquilas,
Ouvidos abertos
E um caloroso abraço.

terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Ser Amado

Às vezes me surpreendo
Com o tanto que você já me ensinou
Em tão pouco tempo -
Com o tanto que me mudou,
Abalando minhas crenças mais profanas
E abrindo caminho para eu me reinventar.
Parece insano
O quanto contigo sou livre
Para me derramar,
Vertendo minhas dores mais distorcidas
Em lágrimas límpidas
Que se desfazem no chão.
É quase um milagre
O quanto você me faz amar -
Amar você, a transformação, o mundo…
Amar plural e transbordante.
Você me ensinou a amar através de si -
A amar como complemento,
Como puro contento
De uma alma que nada mais quer
Do que se iluminar -
Que quer ser eu sendo outro, melhor e mais singular.
Porque você me ensinou a ser amado:
A ser querido,
Visto,
Achado
Em meio à selva escura dos meus pensamentos.
Você me ensinou a ser abraçado
E, envolvido no teu abraço,
Me desembaraçar.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Amarelo

(Tribalistas - Velha Infância [instrumental])

Quero me colorir do teu amarelo
Para assim ser peito aberto,
Nu e descoberto -
Desabrochar minhas pétalas sob o sol
E seguir seu caminho celeste
De calor e sentidos libertos.
Quero encontrar tesouros secretos
Nas linhas das tuas mãos
E explorar o dourado trajeto
Que percorre a tua pele,
Vivendo de te fazer
Carinhos singelos e vãos.
Quero te adorar como os pagãos:
Fazer de você o meu templo,
Morada sublime dos meus desejos -
Meus anseios loucos e sãos;
Erigir com você as colunas do tempo,
Viajar ao espaço,
Explorar as estrelas
E virar um divino mormaço.
Quero ser com você
A conjuntura completa:
A solda, o ferreiro e o aço.
Quero ser ternura e abraço -
Ter a doçura excessiva da gente
Que não teve um só dia incontente,
E manter a energia de criança inocente
Que de toda alegria faz estardalhaço.
Quero ser como uma miragem
Que em meio ao deserto
Se materializa em oásis,
Mas também as várias fases
De um rio em sua longa viagem:
Ser corredeira, remanso
E, afinal, estuário.
Pois vocé é o meu descanso,
O meu santuário:
Contigo eu vazo no mundo
E me deixo fluir,
Me amarelando
Num mergulho profundo
Rumo ao poente,
Sabendo que o mar
Há de ser meu porvir.

sábado, 3 de janeiro de 2026

Espelho

(Fantasia in D Minor, K. 397 - Wolfgang Amadeus Mozart)

Amar você é como mirar um espelho.
Eu me vejo em você,
Só que vejo diverso -
Somos quase o reverso,
Uma contradição.
Nosso amor é um poema dissonante,
Um dissenso harmonizante...
É o solo fecundo da divinação.

Pois as nossas cadências,
Embora distintas, se alinham -
No movimento, elas se fiam
Como fibras coloridas
Tecendo um só cordão.
Assim, somos no espelho
Um emaranhado novelo.
Somos o sono profundo e o desvelo…
Uma estranha união.

Até mesmo o mundo reflete
A nossa oposta comunhão.
Quando nele eu sou silêncio,
Você é todo multidão.
E quando eu me faço palco,
Você vira contemplação.
Você é um raio
E eu sou trovão.
Você, encosta macia
E eu, talássica escuridão.

E vendo-me assim,
Nesse oposto refeito,
Eu percebo o medo
Da morte em degredo
Refletido como um fantasma
Da minha criação.
É ele que me consome
Ocupando minha voz,
Meu pensar e meu peito,
Me lembrando que outrora
Eu me fiz sua morada,
Sua casa… Seu leito.

Mas o reflexo me acalma:
Teu olhar me alcança
Com tuas íris em lança
E derrete meu medo,
Atravessando o portal
De vidro liquefeito.
E, rendido à pujança
Dos teus olhos perfeitos,
O medo me vaza,
Me sai rarefeito,
E eu sinto uma dor em pontada
Anunciando o feitiço desfeito.

E afinal, desatado o nó,
Vejo em ti meu reflexo brilhar -
Teu olhar me reconduz
Tornando-me pura luz
Na tua caverna pupilar.
E, vertido à tua imagem,
Me desfaço em estilhaço
E preencho o espaço
Com as estrelas que sou e que faço
Refratado em você
E no teu amar.