sexta-feira, 14 de agosto de 2026

Sob o Mar pendente nos Céus

 O céu está silencioso essa noite.
Sua escuridão parece desnuda.
Não vejo estrelas a lhe chamuscar
Como faróis em ilhas distantes
Brilhando promessas incertas
Na imensidão.

Não.

A noite hoje é mar negro
– Um oceano inerte, quase em paz:
Não há ondas revoltas
Nem seres rondantes
Espreitando a superfície
Fazendo-me caça
Ou sequer caçador.
Não há sons esguios,
Nem aves rasantes
Com anúncios de terra
Ou ventos constantes.

Há só eu e o espelho
De águas profusas
Sem mensagens ocultas
Nem destinos a explorar.

É estranho
Confrontar-se a si mesmo
Assim, sem entremeios
– Sem filtros nem freios –
Refletido no mundo,
Revelado nos astros
Que nem estão lá.
É estranho descobrir-se tão humano,
Tão cheio de fluxos
Que rodam confusos
E criam uma imagem
De calmaria,
De estuário e mirante,
Quando tudo é inconstante
– É uma soma de erros
Que se pensam roteiro,
Um traçado certeiro
De regresso ao lar.

Acho que sempre quis retornar,
Mas não sei bem a quê.
Não sei se tenho casa
Ou alguma pertença
Em algum outro lugar
Que não o oceano
Em seu vasto degredo,
Seu silencioso aconchego
De juras eternas
De um novo horizonte
Do lado de lá.
Não sei se me escolho,
Ou se só sigo a nave
Conforme comandam
Os deuses ocultos
Que ora sopram minhas velas,
Ora me enchem de entraves,
Sem bem me dizer
Onde vão me atracar.

Acho que quero me reencontrar
Perdido no espaço,
Rendido ao cansaço
De comigo mesmo
Tanto pelejar.
Acho que quero só estar
Na minha barca parada,
Fendida na estrada
Entre a dor e a alegria
De não me completar.
É isso que me diz
O mar negro pendendo no céu:
Eu não quero o que quero.
Quero ser meio,
Eterno rateio
Entre os senhores do meu submundo
E as memórias do meu futuro.
Quero algo outro, mas quero isso tudo.
E, na luta, me inteiro
E fico.

sexta-feira, 12 de junho de 2026

Sorte

Eu tenho a sorte
De viver todo dia
A intensidade e emoção
De um amor tranquilo.
Eu me deito e suspiro
Dentro do teu abraço, 
Mais macio que os lençóis
E mais quente que o Maranhão,
E viajo pra longe de mim
Escondido no teu cangote,
Embalado na tua respiração.
Com você tenho a sorte de rir
Até esquecer-me de ir
Pra onde quer que devia,
Perdido em tamanha alegria;
Tenho a sorte de contar
Com alguém pra chorar
E mergulhar nos meus dramas
Sem temer me afogar.
Com você subo aos céus
E exploro as marés,
Colho estrelas com os dedos
E me encharco no convés.
Contigo sinto firmes meus pés:
Eu me reencontro
E também me desfaço -
Me esvazio de tudo
E me infinito de espaço.
O tempo que dividimos
É o tempo da paz:
Do silêncio solene
E do sino divino
Que anuncia a velhice
E me lembra quando fui menino.
Você, meu amor,
É o meu lírio da sorte
Que colore meu mundo fugaz
E enche minha vida finita
Do teu perfume lilás
.

domingo, 22 de fevereiro de 2026

Estrela Cadente

 Você chegou a mim
Como uma estrela ao meio-dia:
Veio brilhando feito faísca no azul celeste,
Um raio refletido no espelho do Espaço
Que pousou em meus olhos,
Alargando minhas pupilas
E me enchendo da tua imagem estelar
Cuja luz viajou o desfim do Universo
E aqui me alcançou,
Vindo me cativar,
Me revelar e
Iluminar.

Você me acolhe em teu abraço como um sol nascente:
Tua pele macia conforta,
Teu carinho sedoso me abre as portas
E de repente eu vazo no mundo
Todo o sentimento que eu guarnecia
- Despejo as emoções mais sagradas
Revelando as avenidas do meu coração,
As curvas secretas por onde fluo
E até mesmo as ruas sem vida
Que outrora mantive seladas.

Você me envolve com uma maciez que me deixa dormente:
Em teus beijos eu sumo
E ouvindo tua voz eu me aprumo -
Encontro outra vez a mim mesmo
Trocando contigo palavras,
Essências e estradas;
Eu me redescubro
Forjado num Outro
Que me desenfada
Dos olhos cansados
E da dor da jornada.

E assim, de repente, sou uno:
Com você sou enfim o que quis a vidente
Quando disse que o amor
É a fornalha do mundo;
Contigo incandesço,
Contigo derreto
E transformo meu tudo -
Meu inconsciente,
Meu estado descrente
E minha voz, sobretudo.
Pois contigo transbordo -
Eu declamo fluente
Um verso pungente
Que deseja o futuro;
Eu me acendo no escuro e disparo
Deixando um rastro de luz refulgente.

E então, afinal, me converto em teu igual:
Eu parto da Terra
E viro sideral -
Eu encho o Universo
Com a luz ancestral
Da minha sarça ardente,
Rasgando o pano de fundo
De escuridão do infinito
Com a mortalidade triunfal
De uma estrela cadente.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

Coração de Criança

De repente vejo em mim
Tantas camadas que desconhecia.
Encontro nos vãos do meu infinito espaço
Sentimentos que jamais imaginei,
Emoções que não sabia que tinha,
Cruezas das quais sequer desconfiava.
Há coisas em mim -
Machucados,
Tristezas,
Sangrias -
Que me surpreendem.
Descubro que, de muitas formas,
Ainda sou criança -
Ainda sinto virem à flor da pele
Choros que nem sabia que podia conter.
E eu quero vazar deles
- Preciso vazar deles -
Para me refazer.
Talvez seja pesado, para você,
Ser o conduíte por onde filtro esses meus anseios.
E eu peço que me perdoe
Pela dor compartilhada
No que ela te doa
Quando parecer que não há motivos
Para tanto doer.
Mas saiba que eu reconheço o valor
Do quanto você me doa
Acolhendo meu choro no teu coração.
E saiba, acima de tudo,
Que nada é em vão:
Eu sinto que, aos poucos,
Me lavo contigo;
Que me conhecendo através de você
Eu aos poucos revivo.
Eu me renovo,
Me inteiro
E renasço -
Eu me faço contigo num novo compasso
Cujo ritmo acalanta o meu coração de criança.
E espero que, regido nesse novo ritmo,
Eu também possa te ser acalanto -
Que eu possa acolher tuas dores,
Ninar tua criança
E ser pra você um porto seguro
A te receber com águas tranquilas,
Ouvidos abertos
E um caloroso abraço.

terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Ser Amado

Às vezes me surpreendo
Com o tanto que você já me ensinou
Em tão pouco tempo -
Com o tanto que me mudou,
Abalando minhas crenças mais profanas
E abrindo caminho para eu me reinventar.
Parece insano
O quanto contigo sou livre
Para me derramar,
Vertendo minhas dores mais distorcidas
Em lágrimas límpidas
Que se desfazem no chão.
É quase um milagre
O quanto você me faz amar -
Amar você, a transformação, o mundo…
Amar plural e transbordante.
Você me ensinou a amar através de si -
A amar como complemento,
Como puro contento
De uma alma que nada mais quer
Do que se iluminar -
Que quer ser eu sendo outro, melhor e mais singular.
Porque você me ensinou a ser amado:
A ser querido,
Visto,
Achado
Em meio à selva escura dos meus pensamentos.
Você me ensinou a ser abraçado
E, envolvido no teu abraço,
Me desembaraçar.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Amarelo

(Tribalistas - Velha Infância [instrumental])

Quero me colorir do teu amarelo
Para assim ser peito aberto,
Nu e descoberto -
Desabrochar minhas pétalas sob o sol
E seguir seu caminho celeste
De calor e sentidos libertos.
Quero encontrar tesouros secretos
Nas linhas das tuas mãos
E explorar o dourado trajeto
Que percorre a tua pele,
Vivendo de te fazer
Carinhos singelos e vãos.
Quero te adorar como os pagãos:
Fazer de você o meu templo,
Morada sublime dos meus desejos -
Meus anseios loucos e sãos;
Erigir com você as colunas do tempo,
Viajar ao espaço,
Explorar as estrelas
E virar um divino mormaço.
Quero ser com você
A conjuntura completa:
A solda, o ferreiro e o aço.
Quero ser ternura e abraço -
Ter a doçura excessiva da gente
Que não teve um só dia incontente,
E manter a energia de criança inocente
Que de toda alegria faz estardalhaço.
Quero ser como uma miragem
Que em meio ao deserto
Se materializa em oásis,
Mas também as várias fases
De um rio em sua longa viagem:
Ser corredeira, remanso
E, afinal, estuário.
Pois vocé é o meu descanso,
O meu santuário:
Contigo eu vazo no mundo
E me deixo fluir,
Me amarelando
Num mergulho profundo
Rumo ao poente,
Sabendo que o mar
Há de ser meu porvir.

sábado, 3 de janeiro de 2026

Espelho

(Fantasia in D Minor, K. 397 - Wolfgang Amadeus Mozart)

Amar você é como mirar um espelho.
Eu me vejo em você,
Só que vejo diverso -
Somos quase o reverso,
Uma contradição.
Nosso amor é um poema dissonante,
Um dissenso harmonizante...
É o solo fecundo da divinação.

Pois as nossas cadências,
Embora distintas, se alinham -
No movimento, elas se fiam
Como fibras coloridas
Tecendo um só cordão.
Assim, somos no espelho
Um emaranhado novelo.
Somos o sono profundo e o desvelo…
Uma estranha união.

Até mesmo o mundo reflete
A nossa oposta comunhão.
Quando nele eu sou silêncio,
Você é todo multidão.
E quando eu me faço palco,
Você vira contemplação.
Você é um raio
E eu sou trovão.
Você, encosta macia
E eu, talássica escuridão.

E vendo-me assim,
Nesse oposto refeito,
Eu percebo o medo
Da morte em degredo
Refletido como um fantasma
Da minha criação.
É ele que me consome
Ocupando minha voz,
Meu pensar e meu peito,
Me lembrando que outrora
Eu me fiz sua morada,
Sua casa… Seu leito.

Mas o reflexo me acalma:
Teu olhar me alcança
Com tuas íris em lança
E derrete meu medo,
Atravessando o portal
De vidro liquefeito.
E, rendido à pujança
Dos teus olhos perfeitos,
O medo me vaza,
Me sai rarefeito,
E eu sinto uma dor em pontada
Anunciando o feitiço desfeito.

E afinal, desatado o nó,
Vejo em ti meu reflexo brilhar -
Teu olhar me reconduz
Tornando-me pura luz
Na tua caverna pupilar.
E, vertido à tua imagem,
Me desfaço em estilhaço
E preencho o espaço
Com as estrelas que sou e que faço
Refratado em você
E no teu amar.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

Livro dos Mitos

(Night Ride Across the Caucasus - Loreena McKennitt)

Caminho no vale das minhas sombras
Me perdendo de mim
Sem me desencontrar.
O farol que ao longe me guia,
Embora certeiro,
Parece um engano -
Sua luz se difusa na névoa
Criando miragens de vapor
Que dançam como fogo na escuridão.
Sou dos corações que pouco sabem
Mas muito creem.
Sou quase inteiro
E ainda assim completamente incompleto.
As minhas certezas desmancham como areia fina
Que escorre na ampulheta do tempo
E repousa fluida e firme
Criando um sustento inconcreto para meus pés.
Eu falo e sou -
Eu calo e ressoo.
Sou a viagem pelos cânions
Das pinturas rupestres
Que contam uma história ancestral,
Cujas palavras esquecidas
Se rememoram apenas no inconsciente.
Sou a vida que morreu
E a morte que escolheu florir de vida.
Sou a figueira seca
Cujos frutos são doces como a salvação.
Sou integração desintegrada -
O sopro frio da monção,
A queimadura da neve,
A fechadura aberta,
A cidade deserta,
A alma desnuda
E a carne que a reveste.
Sou as passagens desconhecidas
Do livro dos mitos -
Sou os ecos silenciosos
Que vazam dos seus versos
Como revelações sagradas
Cantadas em tons inauditos.
Sou a jornada secreta
Que sobe entre curvas e quedas.
Sou os olhos marejados
Da água salgada
Que, ao turvar minha vista,
Se-me revelou.

Olhos Abertos

Quando abri meus olhos,
Te encontrei estirado
Em meio aos lençóis
Com a pele vermelha
Da maresia quente
Que se embrenhava
Através das cortinas.
Notei teu sorriso
Lascivo e dormente
Querendo acordar
E me derreti,
Descrente de mim.
Toquei teus cabelos luzidios,
Ouvi teus suspiros macios
E quase me convenci
Que teu rosto divino
Era uma miragem solar.
Mas ali estavas,
Todo ensolarado
E, no entanto, encarnado,
Deitado ao meu lado
Como um encanto alado
Nascido de Apolo
Num dia de afago.
Foi quando soprou da janela
Uma brisa sutil
Trazendo lembranças
Da noite vadia
Em que dançamos
Fazendo lambanças
E pintando aquarelas
Com os nossos passos
Em meio às vielas
Amareladas de luar.
E, sem te acordar,
Acariciei tuas costas
E recordei as encostas
Onde nos sentamos
Ao amanhecer
Para sentir o mar
Ribombando revolto,
Perolando o areal
E cobrindo o mundo
De ternura e sal.
E quando tua voz
Enfim me chamou
Lembrei-me, afinal,
Do fogo em teu toque,
Teu beijo e teu choque
Fazendo meu corpo
Tornar-se teu lar.
E então desejei
Com tudo que sou
E com tudo que sei
Que, ao fechar os olhos,
Eu não despertasse -
Que ficasse no sonho
De estar ao teu lado
E, rendido e encontrado,
Me incendiar.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2025

Caminho da Selva

(Love in Portofino - Dalida)

Quero escolher com você
O caminho da selva.
Quero te levar pra percorrer
A trilha secreta que se embrenha
Por entre a ramagem dos meus percalços,
Cheia de segredos e vícios passados,
Fluindo em curvas sob as folhas úmidas.
Quero encontrar, com você, no caminho
As orquídeas ocultas que o tempo esqueceu
E ver com assombro os venenos coloridos
Escondidos nas frestas do matagal.
Quero me atravessar te levando comigo
E ao fim da jornada contigo alcançar
A saída invisível que leva pro mar
Como uma janela aberta na alma
Deixando a maresia quente entrar.
E quero banhar-me de água salgada,
Lavar-me da terra batida da estrada,
E me entregar nos lençóis marinhos
Ao sonho divino de te conhecer -
De perder-me no teu espaço
Entre o sol e as ondas,
Sentir teu calor,
Ouvir teu amor
E com você
Derreter
.


domingo, 23 de novembro de 2025

Sopro

(November - Max Richter)

Ouvi num sopro do vento
A tua voz
Me chamando como um rio.
O som veio
E me conduziu
Por um sinuoso veio de lembrança
Que fluía, descendo e descendo,
Pelos labirintos do meu arvoredo
Buscando um remanso
Onde desaguar.
Ele me chegou num sussurro,
Como um segredo
Mal escondido
E, no entanto, perdido em degredo
Em meio às palavras
Que antes não quiseste me dar.
Ele veio num estrondo,
Num furor de trovão se impondo
Por sobre as copas do mundo
Anunciando a tempestade
Que me queria inundar.
Algo se esconde em aberto
No eco incerto
Que da tua boca escoa
Feito nuvem de garoa
Cobrindo a terra e o mar.
E, mesmo que dúbio, o som me invoca,
Toma forma em meu peito
E demanda passagem
Criando raízes e abrindo ramagem.
Ele rasga meu corpo
E pra si faz morada
Por sobre minha pele
Feito tatuagem.
E então sinto em minha carne
A tua miragem
De chuva suave
Começar a cair
E apagar meus entraves:
Ela molha meus cabelos,
Meus ombros e dedos,
Escorre aos joelhos
E chega aos artelhos,
Banhando-me inteiro
De devaneios
Desajuizados.
E por loucos que sejam
Os meus pensamentos
Debaixo da chuva,
Eu sei…
Ouço tão clara a tua voz.
O vento não mente.
Escuto daqui a entrega latente
Que em ti se há gestado
E outrora, por medo,
Havias ocultado.
Tua coragem secreta
Respinga em meus galhos
E em mim se conecta.
Inspiro teu orvalho
E respondo no vento
Com um sopro discreto:
Achaste-me aberto,
À espera entre os olmos.
Vem e me busca
Assim, encharcado,
Sob as folhas ocres
Do nosso passado.

terça-feira, 11 de novembro de 2025

Succubus

(Berghain - Rosalía)

O jardim se revela selva de segredos.
Seus galhos floridos projetam sombras disformes;
Suas folhas sussurram ameaças contidas;
O chão se encharca de areia movediça.
Algo se esgueira entre as frestas escuras.
Sou eu
E não sou.
O espelho d'água mente -
Algo em suas entranhas me estranha;
Uma fera me caça;
Uma ferida me esgarça.
O silêncio me fala -
Ele vaza do corpo,
Dos olhos
E das palavras.
Num encanto enigmático,
Transbordo do que não dou.
A mata se encerra.
Os sentidos escurecem.
Ele está aqui
E me devora.
E, devorado, sucumbo ao súcubo.
Eu sou o que sou e não sou.
Desapareço no mundo dos sonhos
Sob o signo de desejo e sangue
Do coração arrancado.

segunda-feira, 3 de novembro de 2025

Poema do Louco

Vamos, vamos, meu amigo,
Façamos as coisas dessa maneira.
Já se disse - ou talvez não disseram -
Que quem ri por último,
Ri primeiro.
Sejamos, então,
Ridículos.
Patéticos.
Sejamos os romancistas de esquina,
Que jogam seus panfletos incendiários
No meio da rua
Para que, ensopados e amassados,
Eles sejam lidos apenas por ratos.
Sejamos os gatos que caçam sem cão
E apanham apenas novelos de lã.
Sejamos a linha seguinte do verso
Que esquece a rima
E acaba rimando o reverso.
Ria-se, meu caro amigo,
Do completo desastre em que te hás colocado.
A perdição, afinal, também é um achado!
O poema perfeito,
Te digo sem nenhum julgamento,
É o poema do perfeito otário.
Brinque-se, então, de escrever
E viver
E amar.
Brinque-se de declamar!
As cidades estão cheias de loucos
Profetizando em alto e bom tom o fim do mundo.
Façamo-nos loucos!
Sejamos mais um dos que gritam
A plenos pulmões
Seus sentimentos caducos.
Façamos poesia da morte do poema!
Façamos amor na calçada em Moema!
Rasguemos o livro e quebremos a pena!
Amanhã os garis recolhem os resquícios da festa,
Catando o papel picado que desceu a valeta
Até chegar em Borborema.
E, acabado o carnaval,
Prometo-te muita seriedade
Nos novos andores;
Muitos ardores poéticos austeros,
Muitos pensamentos severos.
E também amores - todos bem modernos.
Atuaremos outra vez no Municipal
Entregando uma performance monumental.
E mal lembraremos das nossas antigas juras
De sentimentos eternos
Correndo logo abaixo do nosso sucesso
Nas entranhas do Anhangabaú.
Ficarão somente os resquícios da festa de hoje:
Será tudo como papel crepom
Picotado, vencido e apagado,
Feito uma piada sem nexo.
E ficará, é claro, este riso
De quem se entregou por engano
E viveu seu erro por completo.

domingo, 26 de outubro de 2025

O Melhor de Todos os Poemas de Amor

(Make You Feel My Love - Adele)


Quis escrever para você o melhor de todos os poemas de amor,
Mas as referências de amor
De repente me parecem inapropriadas e vazias.
Amar, no meu pretérito imperfeito, era verbo pessoal:
Falava de mergulhar em mim, através deles,
Para me encontrar
E, no meu encontro, rodopiar um amor a dois,
Daqueles que se ilham em paixões solitárias,
Que se enchem nos pulmões,
Explodem seus rojões
E se perdem nos rincões da alma.
Meus amores passados foram amores do Ego:
Amei-os para amar-me e, amando-me, me bastar.

Mas hoje eu conjugo amar diferente.

Amo-te, sim, como outrora amei:
Num doce delírio da emoção,
No suave contento e no furor do momento.
Amo querendo ouvir da tua boca as palavras que forem,
Querendo ver nos teus olhos os sorrisos que houverem
E sentir das tuas mãos os carinhos que elas quiserem.
Mas, quando me banho nas tuas amanças,
Eu quero brincar com as crianças.
Quero abraçar meus amigos.
Estar em família.
Quero abrir portas no supermercado
E sorrir para desconhecidos na rua.
Quero ajudar quem precisa
E ensinar minha sabedoria.
Quando eu te amo,
Eu quero pertencer ao mundo.
Pois este amor me dá esperança:
Este amor é andança,
Uma dança que me desabrocha,
Me tira de mim
E enfim me coloca onde sempre pertenci.

Amar-te, meu amor, é, sim, para mim
E para você.
Mas também é mais
- Muito mais -
Do que eu jamais poderia conceber em um poema de amor.
O mundo que o saiba.
A terra que o diga.
O vento que o cante.
E que ressoem na humanidade, pelo tempo que o tempo permitir,
Os frutos desse florescer.

terça-feira, 21 de outubro de 2025

Perdoa-me, coração

(Love in the dark - Adele)


Perdoa-me, coração.
Ouço tua voz
Ribombando a cada batida,
Ressoando através dos teus átrios
Como uma canção e um pedido
Que oxigena cada fibra da minha emoção
Falando do que te vaza
E corre por entre as artérias
Fazendo meu corpo vibrar.
Escuto, puro e claro,
Teu desejo latente,
Pujante,
Abertamente declamado.

Mas eu preciso de tempo.

Preciso que a tua potência
Corra a distância da mente,
Percorra seus labirintos em rodamoinho,
Preencha seus espaços vazios
E então sane minhas dúvidas,
Sare meus medos
E cubra as feridas
De um passado
Que, embora antigo,
De repente parece que há tão pouco foi cicatrizado.

Perdoa-me a indecisão.
A resistência.
A negação.
Perdoa-me os erros tantas vezes revividos
Que me calcificam
E lacinam teu intento
Com lápides de desalento.
Perdoa a repetição dessa velha caução.
Perdoa as cavernas do meu pensamento
Por se recusarem à vida
Após tantas Eras perdidas
Num silêncio mortal.
Perdoa-me por não me libertar
E nem me permitir navegar
Em águas profundas,
Quentes, escuras
E desconhecidas.
Perdoa-me por sucumbir ao temor de naufragar.

Se preciso for, entrego-te todos os tesouros
Que escondi sob a carne.
Desvelo outra vez as passagens doloridas
Que fingi esquecer
E faço, no tear dos amores,
Um novo acalanto pra te aquecer.
Mas peço que não me abandone.
Não desista de mim,
Não silencie a tua fome
Ainda que eu me recuse a dizer o seu nome.
Minha fraqueza é por ele -
Apenas por ele.
Para ti eu sou forte.
A ti recolho.
A ti escolho
E por ti me renovo.
Ainda que fraco,
Ainda que estúpido,
Ainda que, em meu pior, eu te dilacere.
Ainda que minha força não te baste.
Perdoa-me mais este contratempo.
Tomara que, contra ele, venha o tempo…
E que o tempo nos limpe,
Que nele eu me salve
E me torne um receptáculo pleno,
Vivo outra vez,
Para fazer tua voz ecoar
Sem recorrer a desculpas
E jogos de sombras e ocultação.
Perdoa-me, coração,
Por te pedir por mais tempo
E não me render ao momento.

segunda-feira, 29 de setembro de 2025

Olhos Alados

Meus olhos atravessam a escuridão como um raio.
Minh'alma levita, leve como um barco alado,
Por sobre as montanhas quebradas,
As falésias e os mares
Cujas ondas rugem com seus tambores de guerra.
Mas meu espírito não se abala,
Minha luz não se diversa.
Meu coração está firme
Em minha pulsão de vida.
Meus pés não tremem.
Minhas mãos não vacilam.
Minha respiração cresce.
O ar puro me preenche,
Assume a minha forma dentro do peito
E então sai como voz,
Ecoando pelo espaço num estrondo e num sussurro.
Ouço o silêncio ao redor
E sei.
Eu estou pronto.
Minha forma está plena.
Abro minhas asas e saco uma pena.

domingo, 21 de setembro de 2025

Sonata de Verão para Cordas e Aortas


Miley Cyrus - Secrets

Sou sempre inundado
Daquela sensação de lembrança
De verões escaldantes,
Piscinas verdejantes,
Escaravelhos piscantes
E nuvens que parecem estacionadas
Com seus tons de rosa, azul
E púrpura-camaleão
Fazendo do sol uma lua reluzente,
Quente e quase crente
Na arte de pincelar palavras
E fazê-las soar como estradas já percorridas
E de novo revividas
No calor da monção.
Parece que lembro de um furacão
Que me olhou através dos teus olhos
Rodopiando no centro dos céus,
Fazendo as estrelas girar
E o mar ribombar,
Como se o mundo inteiro fosse meu lar
E nada mais houvesse na Terra
Além dos teus braços cobreados,
Teu suor nos meus lábios
E tua pele de azeite
Derretendo minha mente,
Abrindo a espessa mata à minha frente
E tornando a trilha tão nítida,
Tão desinibida
Em direção a mim mesmo,
Levando-me a encontrar meu desejo
- Puro, sem devaneios -
E enfim fazer dele
A minha morada final.
Às vezes acho que moro
Nesse lugar perdido
Entre a memória e a fantasia
Que não sei bem encontrar,
Mas que está sempre desperto,
Ecoando distante
Nas cordas de harpa
Que pulsam com sangue de aorta
Nos meus devaneios silenciosos
Sob o mormaço do luar.

quarta-feira, 3 de setembro de 2025

Amor de Sombras

Vinde a mim os oprimidos
E eu vos renegarei.
De braços abertos
Por sobre o abismo
Eu vos entregarei.
Assim, em silencioso degredo,
Eu vos amo
Pois este é o amor Que sobre mim mesmo fundei.
Meu colo arde
Com o fogo do abandono;
Meu ventre alarde
Com o bramido de um sopro
Que conta das inconstâncias
Correndo em minhas veias.
Com o abraço que, como uma teia,
Me encobre;
O laço que me permeia
E se diz nobre.
Meus olhos de sono profundo
Apagam-se na luz.
Minhas mãos macias
Acariciam o vazio.
Eis como vos acolho:
Com uma imensidão de nada.
Pois o nada me remove
E em nada eu me entalho.
A rua está cheia de almas
E eu não as vejo.
Eu mal sei meu nome,
Mal me reconheço
Em meio ao disforme e seco gole
Que no peito entalei.
‘Não me abandone, não me abandone’,
Eu peço ao meu salvador.
Mas ele tem fome
De tudo que some
Quando a dor não sabe o que é amor.
Eu sou martírio,
Sou espelho vazio
Escondido num falso esplendor.
Eu sou a cruz que consome
Meu sangue descrente,
Sou a estrela cadente
Que cai infinita
Sem nunca cair
E assim perde o chão onde se decompor.
Eu sou a luz que desvia,
A pista que some,
O brilho que guia rumo à escuridão.
Eu sou o profeta da romaria
Que te acaricia
E te deita rente ao furacão.
Onde, então, está a verdade?
Onde está o abade
Pulsando forte e constante
Na minha confusão?
Eu lhe preciso… Lhe quero!
E tudo que ouço é “sê forte”,
Quando tudo que sei é ser sofreguidão.
Busco
Mas a bússola não tem guia
O corpo se esfria
E se perde de mim, sem fricção.
O labirinto é espesso
E eu não sei se procuro
O minotauro ou a saída -
Nem mesmo se entre eles
Há qualquer diferenciação.
Eu ando o caminho turvo
Das minhas profundezas
E de longe miro as estrelas
Esperando que delas venha
A minha redenção.

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2025

Cobwebs

Do you remember when you were an urban boy

In those distant nights of darkened skies

Under the city lights that shined amidst the cobwebs

While a lonesome car passed down the streets

Caressing a mechanical tune within the silence

And the half moon glowed with its eerily calm

Between the hardened white buildings

As the impatient breathing of machines

Declared the unendingness of life

In the dead of dawn?

Those distant days of inner loss

Felt found in ways the present plays cannot.

For while they might resound with emptiness,

Covered as they were in a pale dim scent,

Twas then that life felt plentiful

Despite its frail consent.

Today, then, I relive them –

I caress their long lost wait

And hope that some of it remembers me

And stays within my present

And its spent and withered ways.

domingo, 16 de fevereiro de 2025

Memorial das Palavras

Ainda lembro de um dia muito distante em que fui livre.
Naqueles tempos de outrora,
As palavras escorriam como mel dos meus lábios,
Aderiam como ondas à areia porosa do meu Ser
E descansavam feito folhas secas
Que, cumprida sua estação, se deixavam desprender
E repousar sobre o solo,
Cobrindo-o de uma macia pacificação.
Ainda lembro de quando as ideias pareciam minhas,
Quando elas vinham fortes como emoções
Que me faziam arrebentar
E vazavam do meu peito feito leite
Que mal podia esperar
Para se derramar sobre o mundo
E fazê-lo germinar.
Ainda lembro de quando o mundo era pura potência,
Quando cada esquina era uma porta
Que se abria sobre o espaço profundo
Com todas as suas estrelas, nebulosas e galáxias,
Por onde eu me perdia em navegações despropositadas
Com meu barco de remos alados
Flutuando na beleza infinita
Do vazio entre as constelações.
Ainda lembro, ainda lembro…
Mas não sei se realmente lembro
Ou se fantasio e invento
Uma vida que jamais me abarcou.
Quanto do que Sou é o que lembro?
Quanto do que lembro é o que Sou?
Lembro-me de palavras doces,
Mas talvez elas fossem duras,
Por vezes até mesmo cruas,
Assombrações que a memória vivificou.
Lembro de ideias cristalinas,
Mas talvez elas fossem impuras,
Misturadas a enganações obscuras
Que me saíam turvas
Como algo que se avinagrou.
Perdido entre tantas memórias
- Talvez puras, talvez não -,
Parece que tudo que me resta é a desconfiança.
E, em meio à incerteza,
O próprio mundo virou um labirinto,
Um enigma retinto
Onde cada porta oculta
Um trabalho de adivinhação.
As paredes são apertadas,
Os olhares oblíquos
E a mim só resta a confusa arte da aquiescência
E uma estranheza nauseante.
Não sei como vim parar aqui.
Não me lembro do que aconteceu,
Que curva esguia tomei
Para chegar nessa inconsistência.
O tempo tem jogos estranhos
Que fazem o si-mesmo tornar-se um desconhecido.
Mas eu ainda lembro de algo…
Lembro de tudo que não sei se aconteceu.
E, em verdade, se aconteceu ou não, pouco importa.
A lembrança está no meu espírito
E, por isso mesmo, é viva.
De alguma forma,
Por algum meio misterioso,
Talvez em um mundo paralelo e duvidoso,
Tudo o que lembro sucedeu.
E, por isso mesmo,
As minhas palavras escolhem reviver aquela doçura
– Nem que seja em memória.
Elas escolhem refazer um passado que, construído de utopia,
Quem sabe possa transformar o presente
E assim me fazer consciente
Da vida que jaz oculta,
Correndo inventiva e ensejosa
Em alguma câmara secreta
Nos confins da minha imaginação.