terça-feira, 10 de março de 2020

A Fartura

Estou farto deste meu lugar,
Desse deslugar descolocado
Sobre a borda de uma fantasia tecnológica
Vanguardista e consumista,
Aparelhada para cobrir de tela
O apocalipse analógico
Logo ao lado.
Estou farto de estar tão deslocado
Do meu locus habitandi,
Mergulhado em 4k
De modus alienandi,
Seja byte ou quilate,
Tanto faz:
Tudo custa um Brumadinho
Pra me valer mais humano
Pelas vidas que engoli de lama.
Mas não fui eu!
Não fui eu quem quis
Esse caos e esse estigma
De Brasil colonizado
E exportado para a China
Em commodity
Para ser lá recalibrado
E mandado para a gringa
Onde será descartado.
Não fui eu!
Não fui eu que consenti calado,
Que vivi classificado
Estratificado urbano médio
Nesse chão violentado
E consenti em nada mais
Que conceder meu corpo
Em ofertório
Ao sistema impune
Que nunca para ou retrocede,
Só avança sobre a carne quase-humana
Dos rincões distantes
Dessa minha grã-nação.
Não fui eu que aceitei
Esse consumo como insumo
Da minha identificação.
Não fui eu que escolhi
Pregar o capitalismo,
Amar ser neoliberal,
Defender o mercado
E os seus rumos.
Não fui eu que me fartei
Dos corpos frios
Enterrados sob a fronte
Da expansão econômica
E seus vícios deliciosos,
Saborosos e onerosos.
O ônus é de outro,
A mim não cobre a caução.
Sou só um bicho tão pequeno
Acorrentado à monção
De corrimentos mais profundos
Da globalização.
Estou farto dessa culpa,
Desses olhos invisíveis
Dessas máquinas terríveis
Que giram nas entranhas do planeta
Sem que os possa controlar.
Que faço eu sozinho
Contra os mandos desse monstro espectral?
Estou farto, estou farto…
Também não estás?
Não estamos todos fartos
Da fartura torta
Da malícia irregular?
De não saber o que comemos,
O que fazemos,
O que vivemos,
De jamais se questionar?
Não sentimos todos falta
De um abraço,
De um ar vivo entre os cabelos,
Dentre os seios,
Sob as asas?
Não sentimos?
Por que não unimos
Esse anseio gutural
Num grande grito,
Um rompante contra a elite e o capital?
Por que não revolucionamos
E guiamos por nós mesmos
Aqui e agora
Nosso caminho?
Unamo-nos! Unamo-nos já!
Antes que nunca,
Antes que o tempo pulverize
O carbono de nossos corpos em carvão,
Enrijeçamos
E sejamos diamante em conjunção!

domingo, 8 de março de 2020

Poema em Metalinhagem

Sou as linhas em que me descrevo.
Não surpreende este credo -
Creio-me há tanto poeta em primeiro lugar
Que outra ideia não se me poderia conformar.
Mas as linhas que fio
Puxam-me em mil direções;
Por vezes opostas,
Noutras sequer nas mesmas dimensões
Em que a carne se dispõe.
E as linhas são aço macio
Que não se rompe,
Uma seda masoquista
Na qual se me confino
Um prazer infinito
De ser objeto e sujeito
Das suas minhas tensões.
Aranha e mosca num mesmo instinto,
Amor e sexo num só resumidos
Sem se negar entre si suas contradições.
Eu sou as palavras que vaticino
E também seus efeitos
E suas prévias razões.
Eu sou todos os aspectos da narrativa,
Sou a poesia que prego
Em carne-viva
Contra a cruz que carrego
E a mensagem que alego
Por sobre a coroa
Do corpo que entrego;
Sou o pecado e o perdão.
E já não distingo entre as minhas partes
Os fios que encadeiam a composição;
Que venham, que sejam,
Que se entendam na teia da vida!
Dentre os ditames da existência
Não há nada que diga
Que o cadenciamento de contos
Se deva confinar à razão
De escolhas sem paradoxo.
O absurdo é, no fim, a premissa
Por trás do começo de toda poesia.