quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

A Entrada

(Still Corners - The Trip)

Eu entrei
E você estava na minha cama.
E eu, então, entrei
Na minha mente
Procurando os teus sinais
Em qualquer canto que estivessem
Engavetados na minha negação,
Na conspiração corporal que aprisiona minha expressão
E com ela os sentidos -
Tato, ouvido, olhar, fala...
Menos o olfato -
O teu cheiro trai meu isolamento
E nele sinto minhas camadas em frenesi se derretendo.
Teu odor me faz querer crer
Que nosso afastamento é só defesa,
É só o conjunto de esmeros que ensaiamos
Pra exibir ao nosso entorno com proeza
E, enganando o mundo, nos enganarmos.
Tua surpresa desengana minha cegueira;
De repente eis teu corpo ofertado,
Tua beleza escancarada em desafio
Contra as dúvidas do meu conchavo
E eu creio, eu quase creio,
No nosso afago...
Mas me apago
Num nó
Entalado no desejo
Pois não confio nem no que creio,
Nem na cama,
Nem em mim.
Creio no teu cheiro e nada mais.
Creio que perdi o meu momento
E desviaste o olhar
Levando o corpo a outro lugar
E eu não entrei.

terça-feira, 15 de janeiro de 2019

Gigante

(Zola Jesus - Wiseblood (Johnny Jewel Remix))

Eu me agiganto
Pra não me acabar.
Eu me amianto
Pois se só marmorizado em grafite
Eu ainda me parto
E a luz me arde
Como na primeira vez.
Eu me encanto
Pois enfeitiçado
O meu fado de sulfite
Fica mais resistente
Pra quem tente cantá-lo
E se livrar da embarguez.
Eu me acabo delicado
Como um bardo
Cujo conto descontente
Arrancou o arrebite
E soltou a dor no vento -
Ela, então, fundiu no som
E no eco rarefez.
Eu me banho
Nos rios dos gigantes
Pois mesmo tão pequeno
Às vezes sinto
E noutras tento
Ser gigante
Quer por mim ou por você.

sábado, 5 de janeiro de 2019

A Cabeça do Dragão

(Matsu Take Ensemble - Shirabe-sagahira)

Entra o moço na caverna cintilante
Do dragão negro e azul,
Assim chamada pois seu corredor
É uma garganta escura
Com milhares de luzes brilhantes.
O moço avança a passos lentos,
Temendo o tropeço e o fundo
Sabe lá se do mundo ou de si.
O caminho é estreito e o ar é turvo,
Forçando o pulmão ofegante
A alimentar rarefeito o sangue
Que corre na vista embaçada -
Talvez a visão esteja enganada.
Eis, então, uma pedra
Sobre a qual repousa uma gigantesca cigarra neon-azul.
- O que buscas aqui nas entranhas, meu jovem? - Ela pergunta sem cerimônia.
- Busco a cabeça do dragão.
- Ora, cá estou! Em que posso lhe ajudar?
- Mas tu és a cabeça? Como, se ainda vejo a garganta serpentear muito depois de onde repousas, e nem sequer estás fixada no restante do corpo?
- Quem foi que disse que a cabeça é um fim? Diga lá, qual tua verdadeira pergunta.
O moço, meio estonteado, decide aceitar
A premissa de bom grado, e então acode:
- Busco a razão de tudo, o verdadeiro profundo; o lugar onde reside, afinal, meu significado.
- Não acabo de dizer-lhe do desfim das profundezas, meu jovem? Aqui o túnel é infinito: se lhe buscares o encerramento é quase certo que te percas. Ainda não entendeste o que desde antes da pergunta te respondo: a cabeça não está em um fim.
O moço, perturbado, já não esconde seu estado:
- Mas então não há motivo na jornada? Não há onde chegue e contemple de tudo o resultado? Não há certo e errado? Onde me nortearei sem um norte fixado?
- E já não tens a si próprio guiado? Quem te trouxe aqui, se não tua busca? Procuras um caminho certo que leve ao desejo concretizado sem perceber que o desejo te fala concreto, em tua própria linguagem rimado! Temes a incerteza das infinitas possibilidades e crês nela um vazio, mas não percebes que nela mesma criaste a luz do teu caminho. Aqui na garganta vês brilhando o que podem ser pedras preciosas, vagalumes ou estrelas - dá-lhes o nome que queres: o que importa é que haja brilho, e que esse brilho tu vejas. A cabeça, meu querido, é o sentido que ensejas: estará onde for encontrada quando quiseres que assim seja.