quinta-feira, 21 de julho de 2011

O ateu zetético

Este post servirá de expansão, revisão e aprofundamento dos conceitos apresentados no post "O ateu dogmático".

A cerca de seis meses atrás comecei a escrever sobre ateísmo e a essência dogmática por trás de seus fundamentos. Todos desfrutamos de vidas permeadas por dogmas, queiramos ou não, e isso não é necessariamente ruim, como o termo parece implicar. Acontece que o dogmatismo caiu em desgraça por seu constante paralelismo com as "verdades absolutas", o que acabou destituindo este importante ramo das ciências humanas de sua função inicial, de estipular pontos de partida, fundamentando, em especial, o ativismo da vida. Se vislumbrarmos novamente esta perspectiva, podemos entender como a postulação da inexistência de Deus, ou mesmo a provável inexistência de Deus, é tomada como argumento inicial pelo ateísmo na concepção de seu existencialismo, e como o ateu pode viver fundamentalmente sem a necessidade de Deus.
Dogmas não são, ao menos segundo seu conceito empírico, inabaláveis. Pelo contrário, requerem uma construção argumentativa para estruturá-los. Na teoria do direito, apresenta-se o conceito de zetética, responsável por esta atividade intelectual. Zetética é, resumidamente, o ato da absorção de conceitos de outros ramos do conhecimento, como a sociologia, antropologia, filosofia, etc, na construção de uma estrutura jurídica mais próxima da realidade. O direito, então, dogmatiza conceitos de outras áreas para lidar com sua manutenção social, de forma sucinta.
Transpondo o termo para o âmbito da construção de estilos de vida, zetética seria o desenvolvimento racional que permeia a vivência de um indivíduo. Argumentos filosóficos ocorrem aqui, num constante exercício de desconfiança e descrença, que não é exclusividade de ateus. Todos raciocinamos nossos dogmas de uma forma ou de outra, em um momento ou outro.
Existem inúmeros argumentos a favor e contra a existência de Deus, especificamente. Podemos citar os argumento da moralidade e cosmologia, pela proposição teísta, e a problemática do mal e o paradoxo da onipotência, pelos antiteístas*. Na verdade, de forma geral, não há plena concordância em relação à questão na filosofia, e a existência ou inexistência de Deus nunca foi plenamente comprovada, sendo boa parte dos argumentos de ambos os lados plenamente defensáveis, assim como perfeitamente atacáveis.
Acho interessante destacar que a maior parte desses argumentos tenta provar ou desprovar Deus através de características específicas deste. Neste sentido, a validação do argumento dá-se unicamente no âmbito da divindade a que se propõe, e isso é muito importante. A problemática do mal, por exemplo, prega a incompatibilidade de um deus onipotente e perfeitamente bom, o que não significa dizer que Deus não exista sem uma das duas características, ou mesmo sem nenhuma delas, apenas que é logicamente impossível tê-las combinadas. Assim, o deus panteísta poderia existir, pois ou não está interessado na humanidade (logo não influiria em nossa noção de bom e mau), ou, talvez, não seja sequer essencialmente bom. Destaquei o argumento do mal pois é o mais recorrente e o mais reconhecido, mas tal exercício pode ser feito com praticamente qualquer argumento, tanto a favor quanto contra a existência de Deus.
Pessoalmente, creio que a problemática do mal é um argumento fortíssimo. Se fosse teísta, provavelmente passaria toda minha vida tentando desvendar este enigma (coisa que, alega-se, nunca foi alcançada em séculos de tentativas) - sem apelos a "mistérios divinos" e "fé", é claro, que não passam de desistências disfarçadas, no meu ponto de vista.
Ademais, o próprio cotidiano do estilo de vida tende a reforçar zeteticamente o dogma, ao que me parece. A forma que um teísta lida com seu dia a dia é radicalmente diferente daquela do ateu. A forma de observar o universo é extremamente diversa, o que tende a intensificar as diferenças, ao menos até que algum rompante intenso altere tais desenvolvimentos, se é que algum dia isso acontecerá. De certa forma, podemos dizer que o dogma produz resultados que zeteticamente acabam por influenciá-lo novamente, reforçando-o. Se isto é bom ou ruim, não sei dizer. Mas, afinal, parece ser realidade para todos.
Um diferencial fundamental, contudo, diz respeito à procedência zetética extra-filosófica dos dogmas. Há, claro, os argumentos racionais, mas fora isso ateus e teístas tendem a extrair pontos de vista de áreas bastante discrepantes: a ciência, de um lado, e a teologia, de outro. Não tenho a teologia em alto apreço, em especial por acreditar que trata de argumentos viciados (partindo de Deus para propor Deus), mas talvez isso seja um problema pessoal, ou mesmo falta de informação. E, afinal, quem sou eu para afirmar que as crenças de outras pessoas estão erradas?
Acabei não falando tanto de algumas opiniões que embasam meu ateísmo, como imaginei que faria nesse texto, então concluirei com algumas observações mais expressivas e talvez agressivas, embora um pouco vagas: creio que ao observarmos a lógica por trás de um teísmo de onipotência, onipresença, onisciência e perfeita benevolência de um único ente criador, há inúmeras incongruências e discrepâncias que ficam latentes. São tantas, e tão bem expressas em inúmeros argumentos antiteístas, que torna-se difícil aceitar Deus como ele é tradicionalmente formulado, em especial no monoteísmo. Para piorar as coisas, as propostas em geral baseiam-se em defesas circulares e omissões convenientemente posicionadas. Consigo aceitar outras ideias de Deus mais abstratas e complexas - aliás, não duvido tanto assim da existência de alguma divindade: pelo contrário, considero algumas teses bastante plausíveis -, mas até hoje não fui convencido da existência de alguma que mereça, ou sequer queira, minha atenção e devoção. Fico, então, no existencialismo ateu sartriano que já citei num texto passado: resto na terra com meus problemas e os problemas da humanidade, tentando encontrar uma forma de lidar com eles - somente eu e o mundo.

* Não delongar-me-ei na apresentação de cada um dos argumentos exemplificados neste texto. Uma simples pesquisa pela internet lança luz sobre os principais pontos de cada um.

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