domingo, 14 de fevereiro de 2021

Subitamente me descobri livre

Subitamente me descobri livre.
Foi estranho...
A liberdade me soou como uma estranha prisão
Onde eu me vi trancado para fora de mim mesmo.
De repente aquele conforto que eu me criara
Para me blindar da vida externa
Desmoronou em pedaços
E eu me encontrei nu -
As cicatrizes expostas,
As estrias visíveis
E a barriga redonda sobrando ligeiramente,
Sua dobra rompendo a harmonia do corpo,
Mas ainda insuficiente
Para ocultar-me de mim as vergonhas.
Repentinamente encontrei-me ridículo,
Infantilizado,
Fragilizado e dependente,
Agarrado às minhas pernas num choro premente.
Encontrei-me como há muito não me encontrava
E tive em mim o desconforto de interagir com o desconhecido -
E o desconhecido era eu.
Mas não foi só isso que estranhei.
Ainda mais estranho foi descobrir-me no desconecto
Muito bem conhecido,
Como se, passados os instantes do encontro inicial
Entre meus eus,
A liberdade tivesse fundido
Um novo compromisso,
Uma nova compreensão mútua
E meus pólos se olhassem dizendo:
"Sim, é verdade, cá estamos, e sempre fomos assim.
Ontem mesmo me disseste isto,
E eu te respondi isso outro.
Em verdade não há nada de novo aqui;
Em verdade nada descobrimos
E descobrimos tudo."
Tudo que encontrei na liberdade foi estranhamento -
E o estranhamento me encontrou.

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