quinta-feira, 20 de fevereiro de 2025

Cobwebs

Do you remember when you were an urban boy

In those distant nights of darkened skies

Under the city lights that shined amidst the cobwebs

While a lonesome car passed down the streets

Caressing a mechanical tune within the silence

And the half moon glowed with its eerily calm

Between the hardened white buildings

As the impatient breathing of machines

Declared the unendingness of life

In the dead of dawn?

Those distant days of inner loss

Felt found in ways the present plays cannot.

For while they might resound with emptiness,

Covered as they were in a pale dim scent,

Twas then that life felt plentiful

Despite its frail consent.

Today, then, I relive them –

I caress their long lost wait

And hope that some of it remembers me

And stays within my present

And its spent and withered ways.

domingo, 16 de fevereiro de 2025

Memorial das Palavras

Ainda lembro de um dia muito distante em que fui livre.
Naqueles tempos de outrora,
As palavras escorriam como mel dos meus lábios,
Aderiam como ondas à areia porosa do meu Ser
E descansavam feito folhas secas
Que, cumprida sua estação, se deixavam desprender
E repousar sobre o solo,
Cobrindo-o de uma macia pacificação.
Ainda lembro de quando as ideias pareciam minhas,
Quando elas vinham fortes como emoções
Que me faziam arrebentar
E vazavam do meu peito feito leite
Que mal podia esperar
Para se derramar sobre o mundo
E fazê-lo germinar.
Ainda lembro de quando o mundo era pura potência,
Quando cada esquina era uma porta
Que se abria sobre o espaço profundo
Com todas as suas estrelas, nebulosas e galáxias,
Por onde eu me perdia em navegações despropositadas
Com meu barco de remos alados
Flutuando na beleza infinita
Do vazio entre as constelações.
Ainda lembro, ainda lembro…
Mas não sei se realmente lembro
Ou se fantasio e invento
Uma vida que jamais me abarcou.
Quanto do que Sou é o que lembro?
Quanto do que lembro é o que Sou?
Lembro-me de palavras doces,
Mas as palavras, hoje, soam duras,
Por vezes parecem cruas,
Assombrações do que antes as vivificou.
Lembro de ideias cristalinas,
Mas hoje elas parecem impuras,
Misturam-se a enganações obscuras
E me acabam saindo turvas
Como algo que se avinagrou.
O próprio mundo virou um labirinto,
Um enigma retinto
Onde cada porta oculta
Um trabalho de adivinhação.
As paredes são apertadas,
Os olhares oblíquos
E a mim só resta a confusa arte da aquiescência
E uma estranheza nauseante.
Não sei como vim parar aqui.
Não me lembro do que aconteceu,
Que curva esguia tomei
Para chegar nessa inconsistência.
O tempo tem jogos estranhos
Que fazem o si mesmo tornar-se um desconhecido.
Mas eu ainda lembro de algo…
Lembro de tudo que não sei se aconteceu.
E, em verdade, se aconteceu ou não, pouco importa.
A lembrança está no meu espírito
E, por isso mesmo, é viva.
De alguma forma,
Por algum meio misterioso,
Talvez em um mundo paralelo e duvidoso,
Tudo o que lembro sucedeu.
E, por isso mesmo,
As minhas palavras escolhem reviver aquela doçura
– Nem que seja em memória.
Elas escolhem refazer um passado que, construído de utopia,
Quem sabe possa transformar o presente
E assim me fazer consciente
Da vida que jaz oculta,
Correndo inventiva e ensejosa
Em alguma câmara secreta
Nos confins da minha imaginação.