quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Joy(o)

Há uma aberração no âmago,
Na monção que encharca meu chão.
Há estultícia
Vitalícia em seu trepidar.
Há um vento que volta a soprar;
Há joio a ser colhido
E novamente nos campos esparramado;
Ave joio...
Sem ti, que seria o trigo?

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Íntimo-mar

(Menino - Roberta Sá e Trio Madeira Brasil)

Marejou o feitiço dos teus olhos
E marujei sem jeito nesse poço
Possesso feito amante noturno
Apraziguável somente se olhar
O corpo todo, o rastro de sopro
Resvelando tuas costas, tuas coxas,
Teus pés e o lençol a te semi-cobertar.
Maria-de-amores, Maria-de-dengo,
De pós-calejar teus dedos, tuas pernas,
Tua hipnose a me endiabrar,
Tuas serpentes nas íris, nos braços,
Nos cantos de luz de quem cama
E kamikaze desvia o lírio do ventre
Ao teu desconhecido antimar.

terça-feira, 5 de agosto de 2014

Encosto no muro

Encosto no muro
E é como se me deitasse numa cama de esquecimento.
Reclino a cabeça
E é como se a deixasse repousar nos ombros de um amante.
Recordo tudo.
Tudo e mais.
O presente fala demais,
Mais que o passado,
Mais que o futuro
E dele jamais esperei tanto.
Não me traia, presente...

Toca um rebite floreado repetindo tudo que já nos foi dado

Floreado ao lado da ladeira
Entre a confraria dos ateus
E a barraquinha de feira
Em que a musicista alaúda,
A voz graúda,
Uns rebites de canção
Retocando o som da rua...

Um poema.
Ou será que só nasceu
Antes que os lábios meus,
Tema esse e outros poetas,
Os amantes e os estetas,
Antenassem nua a paisagem
Sobre a miragem que te acometeu?

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Facestratégia

Há dias em que sou gema
Preciosa e clara
Ou envolta em clara

Estratagema
Estratosfera

Fera
Ou extrato

Exalado no jardim
Sofrido no banco

Assentado na praça
No leito escuro do mar

Leite ou café
Café com leite

Mas visto de frente
Sem que se releve um lado
Não passo de menino.

Ferrotapa

Pego o metrô
Estou tonto
Desço a rua
Ando torto
Chego em casa
Não acho a chave
E nem embriagado estou.
Bem, talvez um pouco.
Uma dose de cachaça
E uma porrada de cotidiano
Que vinha me buscando
E acabou por me encontrar.
Agora a ferroada pegou.
Agora o tapa travou
Na mandíbula frouxa.
Não quero casa, não quero rua,
Não quero transporte público.
E agora, para onde vou?

domingo, 3 de agosto de 2014

Javali

Javali um sonho.

Recebi uma visita dos espíritos da felicidade.
Tudo passou rápido demais.
Sentamo-nos à mesa, passei um café.
Falamos de assuntos eruditos.
Rimos de coisas banais.
De repente era hora de partirem.
Há bichos na selva que se alimentam de espíritos
E roncam assustadoramente no calar da noite.

Javali um mito.

Era uma moça poeta quando criança.
Melhor que poeta, era ninfa.
Tão natural que nem a dor podia me doer.
Precisava de um escape para sofrer.
Um dia fugi pelo caminho do desencanto
E escapei para sempre de ser feliz.
Lá estava um enorme deus porco que me cobiçou
E em troca do tão desejado infortúnio
Pediu-me amor.
Hoje sou só poeta.

Javali uma vida.

Valho tantas vidas quanto já comi.
As carnes me passam, dissipam e saem desfibradas;
Desfibriladas; ventríloquas.
Já tive uma própria. Não mais.
Desde que me saciei do lombo de um javali selvagem
Virei vampiro de tempo:
Gasto-o todo para sentir os olhos piscarem
Por um segundo que seja.
Já fui muito mais...
Porém não quereria mais ser.
Aqui está melhor.

Jánãovalho e encravo melhor na seiva da vida.

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Sobremaneira

Minto
Mente
Menta
O sabor
Saberei saborear
Quando não souber de saber
E souber sobreviver
Ao soco de mentir
Ao sentimento
De sentir
Sem que seja
Sobretuvir.

Broto

Amor que não é amor
Que não brotou
Que não tem cor
Que estremeceu
Mas não eu
Algo, alguém, o trem
Lá na passagem distante
Onde entra o amor
Antes de ser alguma coisa
É qualquer coisa
Que não seja
E seja amor.

Arranha

Arranha rarefeita a trama desconexa
Sei lá se perversa, manha ou ganha.
Será que me apanha?
Será que desconversa?
Será que sabe até se bate o peito
Contra a fronte da tua testa?
O som é desconforto
Mas o ar é de "me peça"
Enquanto a vitrola vai batendo
Tentando coraçãoficar
Quem já ficou perdido na primeira remessa.