sábado, 9 de março de 2013

Marília

Marília, minha filha,
Escute bem.
Deixo aqui uns versos
Pois de resto não se aprumam as palavras
E o gesto que desejo não lhes vem.
Espraia a maresia,
Ora às matas, ora às ondas,
Rolando nela a dor e a alegria.
Na vida uns escolhem ser das águas
E afogar suas mágoas
Navegando numa longa romaria.
Outros preferem ser das terras
E enterrar seus males
No acampado chão da pradaria.
Teu velho também pensou
Ser uma decisão a vida
Entre a costa e a enseada,
Mas não soube a qual pertenceria.
Agora, como espectro de poeta
Levitando à deriva na brisa,
Pensa ter descoberto em sobrevida
O segredo de sua sabedoria.
Se servem, Marília, estas palavras
De conselho que decidas pro teu bem,
Faz delas um bote e uma choupana
Sazonal, como o tempo te convém.
Medita, Marília, o pensamento mais insano
Aquilo que te faz um ser humano
Decano das tuas horas,
Sacerdote do teu plano.
Medita o sacrifício em teu altar
O feno que forma o teu subterrâneo,
Descobre o teu segredo mais profano
E o pano que te oculta como véu.
Então, com vista limpa como o céu,
Verás que és um mar mediterrâneo
E uma ilha pequenina no oceano.
Sinta agora o som do teu tambor
Titubeando a linha do horizonte
No deserto chamuscado dos teus sonhos;
Mergulha nessa areia líquida,
Enterra-te em seu caldo obscuro
E saiba, Marília, que isso tudo
É uma só coisa sob a brisa movediça.

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